Força que move a indústria: metalúrgicos constroem história e desenvolvimento no Sul catarinense

Hoje, no Sul de Santa Catarina, o setor metalúrgico segue como um dos pilares da economia regional - Foto: Nilton Alves

Por Alexandra Cavaler

O Dia do Metalúrgico, celebrado em 21 de abril, homenageia os profissionais responsáveis por transformar metal em peças, estruturas e soluções que sustentam setores inteiros da economia. Presente em indústrias siderúrgicas, automobilísticas, navais e até na mineração, a categoria carrega uma história milenar e, ao mesmo tempo, segue em constante evolução com o avanço da tecnologia e da qualificação profissional.

Considerada uma das profissões mais antigas da humanidade, a metalurgia surgiu há cerca de seis mil anos, com os primeiros ferreiros. No Brasil, a categoria ganhou destaque não apenas pela relevância econômica, mas também pela mobilização em defesa de direitos trabalhistas. Hoje, no Sul de Santa Catarina, o setor segue como um dos pilares da economia regional.

De oficinas ligadas ao carvão à autonomia industrial

O setor metalúrgico do Sul de Santa Catarina não nasceu como protagonista da economia regional, mas conquistou esse espaço ao longo das décadas. De acordo com o professor e doutor da Unesc, Alcides Goularti Filho, a atividade teve origem como suporte direto à indústria carbonífera, com pequenas oficinas que produziam peças e realizavam manutenção de equipamentos utilizados na extração do carvão.

Com o passar do tempo, essas oficinas começaram a ampliar sua atuação, atendendo também outros segmentos, como a indústria cerâmica, o setor têxtil e o de plásticos. Esse movimento marcou o início de uma transformação estrutural importante: o que antes era uma atividade acessória passou a desenvolver identidade própria dentro da economia regional.

Segundo Alcides, esse processo de consolidação ganhou força a partir das décadas de 1950 e 1960, mas foi principalmente entre os anos 1990 e 2000 que o setor deu um salto significativo. “Nesse período, empresas locais passaram a investir em inovação, tecnologia e novos modelos de gestão, buscando inserção em mercados mais amplos, inclusive fora da região. Esse setor deixa de depender exclusivamente das indústrias locais e passa a ter uma dinâmica própria, com capacidade de competir em nível regional e nacional”, explica.

Outro ponto fundamental nesse avanço foi a qualificação da mão de obra. O professor destaca que, no passado, o setor exigia menor formação técnica, mas esse cenário mudou de forma significativa nas últimas décadas. Hoje, instituições como Senai, IFSC e Satc desempenham papel essencial na formação de profissionais especializados, com cursos técnicos, tecnólogos e capacitações voltadas à indústria metal-mecânica.

Impacto direto à economia

Essa evolução impacta diretamente a economia. Conforme Alcides, trabalhadores mais qualificados tendem a receber melhores salários, o que aumenta o poder de consumo das famílias e fortalece o comércio e os serviços locais. “A qualificação gera produtividade, que gera melhores salários, e isso retorna para a economia em forma de desenvolvimento”, afirma.

Além disso, segundo o professor, o setor metalúrgico se tornou estratégico na diversificação econômica do Sul catarinense, reduzindo a dependência de atividades tradicionais, como a mineração e a cerâmica. “Hoje, ele é visto como um dos pilares do crescimento regional, com capacidade de inovação e expansão contínua”.

Rotina intensa, desafios constantes e orgulho de uma profissão que move o país

Por trás das máquinas, estruturas e peças que movimentam a indústria, estão milhares de trabalhadores que enfrentam uma rotina exigente e, muitas vezes, pouco visível. Na região que abrange de Braço do Norte a Passo de Torres, passando por cidades da Região Carbonífera, o setor reúne cerca de 15 mil metalúrgicos, cada um com sua trajetória marcada por esforço, aprendizado e resistência.

Com mais de três décadas na profissão, Edijalma Machado de Oliveira representa uma geração que construiu sua carreira dentro da indústria. Ele conta que começou ainda jovem, em busca de estabilidade e oportunidades. Sem formação técnica inicial, aprendeu na prática, com apoio de colegas mais experientes, desenvolvendo habilidades ao longo dos anos.

No dia a dia, a rotina exige atenção constante. Operação de máquinas, cumprimento de processos e trabalho em equipe fazem parte de uma dinâmica que não permite descuidos. “É um ambiente que exige responsabilidade e foco o tempo todo”, relata.

Além das exigências técnicas, o trabalho também demanda cuidado com a saúde e segurança. O uso de equipamentos de proteção individual e o cumprimento das normas são fundamentais para evitar acidentes. Fora da empresa, o descanso e os cuidados com o corpo se tornam essenciais para manter o ritmo de trabalho.

Transformações do setor

Edijalma também acompanhou as transformações do setor ao longo dos anos. A introdução de novas tecnologias e a modernização dos processos mudaram a forma de trabalhar, exigindo constante adaptação. Ainda assim, ele acredita que a profissão poderia ser mais valorizada. “É uma área fundamental, mas que nem sempre recebe o reconhecimento que merece”, avalia.

Já André Bonifácio, com 18 anos de atuação e também envolvido no movimento sindical, traz uma visão que combina experiência prática e representação dos trabalhadores. Para ele, um dos principais desafios atuais é a falta de mão de obra, que acaba gerando sobrecarga para quem está na ativa.

A vivência dentro das empresas também expõe momentos difíceis. André relembra como um dos episódios mais marcantes da carreira a demissão em massa de cerca de 130 trabalhadores em uma empresa, consequência de cortes de custos. Situações como essa evidenciam a instabilidade que ainda pode afetar o setor.

Na avaliação dele, a valorização da profissão ainda está aquém do ideal, especialmente em relação aos salários. “É um trabalho essencial, mas que precisa ser mais reconhecido, mas apesar dos desafios, há um sentimento comum entre nós profissionais: o orgulho de fazer parte de um setor que impacta diretamente a vida de toda a sociedade. Tudo o que a gente usa no dia a dia tem, de alguma forma, a mão da metalurgia”, ressalta André.

Para quem pensa em ingressar na área, os trabalhadores destacam que é preciso dedicação, paciência e disposição para aprender continuamente. “A profissão exige esforço, mas também oferece crescimento, experiência e a possibilidade de construir uma trajetória sólida dentro da indústria”, conclui Edijalma.

História do aço no Brasil

Fonte: Instituto Aço Brasil

No Brasil, a exploração do ferro/aço sempre foi propícia devido aos minérios de Minas Gerais e as primeiras usinas começaram a se desenvolver após a chegada da família real portuguesa em terras brasileiras. Porém, o mercado começou a se desenvolver mesmo já no século XX, com o surto industrial verificado entre 1917 e 1930.

Em 1921, foi criada a Companhia Siderúrgica Mineira, que depois tornou-se Siderúrgica Belgo-Mineira após acontecer a junção com o consórcio industrial belgo-luxemburguês ARBEd-Aciéres Réunies de Bubach-Eich-dudelange. A década de 30 registrou um grande aumento na produção siderúrgica nacional, incentivada pelo crescimento da Belgo-Mineira que, em 1937, inaugurou a usina de Monlevade, com capacidade inicial de 50 mil toneladas anuais de lingotes de aço. Ainda assim, o Brasil continuava muito dependente de aços importados. Esse retrato foi alterado apenas em 1946 com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda – RJ.

O ano de 1950, quando a usina já funcionava com todas as suas linhas, pode ser tomado como marco de um novo ciclo de crescimento da siderurgia no Brasil. A produção nacional de aço bruto alcançou 788 mil toneladas e tinha início uma fase de crescimento continuado da produção do aço no Brasil. Dez anos depois, a produção triplicava e passados mais dez anos, em 1970, eram entregues ao mercado 5,5 milhões de toneladas.

Na década de 90 era visível o esgotamento do modelo com forte presença do Estado na economia. Em 1991, começou o processo de privatização das siderúrgicas. Dois anos depois, oito empresas estatais, com capacidade para produzir 19,5 milhões de toneladas (70% da produção nacional), tinham sido privatizadas. Essas privatizações trouxeram ao setor expressivo afluxo de capitais, em composições acionárias da maior diversidade.

Com uma história tão rica, o Brasil tem hoje o maior parque industrial de aço da América do Sul; é o maior produtor da América Latina e ocupa o sexto lugar como exportador líquido de aço e nono como produtor de aço no mundo.

 

Gostou da notícia então compartilhe:

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram

Mais lidas da semana

Noticias em destaque

Noticias

Outros links uteis