Na travessia entre vilarejos da Itália, caminhos de terra e estações esquecidas, a história da imigração italiana ao Brasil começa ainda antes do mar. É no caminho entre a porta do lar e o porto que o novo documentário da ARA Produções de Araranguá, concentra a narrativa, ao reconstruir a etapa menos explorada desse processo, mesmo após 150 anos da partida dos italianos rumo a uma terra distante.
Após quase um mês de captação em território italiano, a equipe do cineasta Sandro Luiz Pagnan retorna com um rico material composto por imagens e depoimentos que dão consistência à proposta do audiovisual. Durante o período, eles percorreram cerca de 20 cidades, em um esforço de reconstituição alinhado ao contexto histórico e que evidencia os padrões de vida anteriores à travessia atlântica.
Esse deslocamento interno vivido por milhares de famílias que deixaram propriedades rurais e familiares para percorrer até 470 quilômetros rumo aos portos é o ponto principal dessa investigação. “A proposta sustenta um olhar atento às múltiplas dimensões da imigração, reunindo memória, identidade e deslocamento”, afirma Pagnan.
O documentário se baseia em estudos históricos e entrevistas com especialistas, além de relatos que permitem dimensionar a realidade social enfrentada na época. A Itália atravessava um cenário de instabilidade, com escassez de trabalho, crises agrícolas, famílias numerosas e limitações estruturais agravadas pelo clima e pelo contexto de guerra.
Nesse ambiente, a saída para o Brasil surgia como promessa de recomeço. Contudo, a realidade era mais complexa. “O recorte evidencia não apenas o deslocamento geográfico, mas também as condições sociais e humanas desse processo. Queremos mostrar como viviam e o quanto sofreram os italianos até chegar ao Brasil”, cita o diretor.
A ruptura antes da travessia
A narrativa posiciona o momento da despedida como marco decisivo do percurso. Abandonar propriedades, romper vínculos familiares e seguir rumo ao desconhecido configura uma decisão atravessada por incertezas. A promessa de prosperidade, amplamente difundida, contrasta diretamente com as dificuldades concretas observadas tanto na origem quanto no destino.
Conforme Pagnan, embora a travessia e a chegada ao Brasil concentrem grande parte das histórias já conhecidas, o cenário anterior revela uma dimensão igualmente decisiva. “Hoje, olhando isso, acredito que foi melhor para eles, mesmo com as dificuldades enfrentadas aqui, porque na Itália estava ainda pior, devido ao clima e à falta de alimento. Temos relatos de italianos que sobreviviam da caça, e lá isso também estava escasso”, relata.
A produção ainda destaca as diferenças sociais dentro do próprio território italiano. Aqueles com melhores condições migravam para centros urbanos e assumiam novos ofícios, como atividades portuárias. Já a maior parte dos que optaram pelo Brasil era oriunda do campo, marcada por uma realidade de baixa renda, pouca terra disponível e reduzidas perspectivas de ascensão.
A execução do projeto no continente europeu impôs desafios logísticos e operacionais. Identificar localidades de origem e reconstruir trajetórias exigiu apoio de moradores e pesquisadores locais. “O desafio de chegar aos lugares, descobrir de onde eles partiram e acessar os pontos certos foi grande, mas conseguimos superar tudo com apoio de italianos que nos conduziram e auxiliaram em todo o processo. Executamos o planejamento de forma homogênea”, destaca.
Com cerca de 50 minutos de duração previstos, o documentário entra agora na fase de edição, etapa que exige rigor para preservar a identidade do material captado e manter a narrativa proposta.
Além de Sandro Luiz Pagnan, que também assume a condução narrativa como apresentador, integram a produção o diretor Josué Genuíno; o historiador Idemar Gizzo; a roteirista Bruna Genuíno; o diretor de fotografia Vitor Lopes; o assistente de direção, Wesley Vieira, além de Orlando Raimundo Neto e Ísis Alexandre Pagnan, responsáveis pelo som e pela produção.
Produção amplia percurso
Idealizado por Pagnan, o filme inaugura uma nova etapa no percurso do cineasta, que já reúne produções como “Azambuja”, exibido em território italiano, “Quando Ela Chegar”, voltado ao universo dos pescadores, e “A Primeira a Gente Nunca Esquece”, centrado na valorização das professoras. O novo trabalho amplia esse repertório ao incorporar uma abordagem histórica e formativa sobre os fluxos migratórios.
O projeto conta com apoio do Governo Federal, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e patrocínio do Supermercado Bistek, o que viabiliza a execução e amplia a capilaridade da iniciativa cultural. Os trabalhos do cineasta estão disponíveis no canal oficial do Youtube: https://www.youtube.com/@araproducoes e no perfil oficial do Instagram: @araproducoesoficial.



















