quarta-feira, 16 setembro, 2026
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Emergências silenciosas

Às vezes, estar presente é perceber a tempo que alguém precisa ser ouvido

 

Estamos acostumados a reconhecer uma emergência pelo barulho. Uma ligação para o 190, uma sirene, uma discussão, um acidente, uma arma, alguém correndo ou um pedido de socorro. Na segurança pública, aprendemos a prestar atenção nesses sinais porque, muitas vezes, eles indicam que alguma coisa saiu do lugar.

O problema é que nem tudo que oferece risco faz esse tipo de anúncio.

Há pessoas que continuam cumprindo a rotina enquanto enfrentam alguma coisa que ninguém ao redor consegue enxergar. Trabalham, estudam, cuidam dos filhos, encontram os amigos, vão à academia. Fazem o que sempre fizeram.

E, ainda assim, alguma coisa pode não estar bem.

Isso não significa transformar qualquer mudança de comportamento em sinal de crise, nem tentar interpretar o que se passa dentro de alguém. Significa apenas não passar tão depressa por aquilo que percebemos.

Na atividade policial, somos treinados para perguntar. O que aconteceu? Onde foi? Quem está envolvido? Existe algum risco imediato? São perguntas objetivas, que usamos para entender uma ocorrência e decidir como agir.

Mas existe uma pergunta simples que quase nunca faz parte desse roteiro:

Você está bem?

Não aquele “tudo bem?” que usamos por hábito, quase como uma saudação, e seguimos andando antes mesmo de ouvir a resposta.

Perguntar de verdade é outra coisa. É demonstrar que existe tempo para ouvir uma resposta que talvez não seja confortável, simples ou rápida.

A campanha do Setembro Amarelo de 2026 do Centro de Valorização da Vida (CVV), que atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia, adotou justamente o tema “Escutar é estar presente”. A mensagem chama atenção para algo aparentemente simples, mas cada vez mais raro: estar disponível para ouvir.

Quando falamos em segurança pública, normalmente imaginamos alguém em perigo por causa de outra pessoa. Um assalto, uma agressão, uma ameaça, uma violência. Mas existem momentos em que alguém diante de nós pode estar enfrentando um risco que não vem de fora. Pode estar acontecendo dentro dela.

Nessas situações, proteger também passa por perceber que alguma coisa mudou. Não é assumir o papel de psicólogo, tentar resolver a vida de alguém ou acreditar que teremos a resposta certa para tudo. É não ignorar uma mudança importante, não tratar um sofrimento como frescura e, principalmente, reconhecer quando alguém pode precisar de ajuda.

Nem todas as emergências travam o trânsito ou mobilizam viaturas. Algumas aparecem apenas no olhar distante de quem está ao nosso lado.

Não precisamos ter todas as respostas para estar presentes. Às vezes, podemos começar simplesmente ouvindo.

Talvez a pergunta não resolva o problema. Talvez nem sequer saibamos o que fazer depois da resposta.

Mas, para alguém que estava esperando uma oportunidade para falar, ser ouvido pode ser o primeiro passo para pedir ajuda.

Às vezes, estar presente é perceber a tempo que alguém precisa ser ouvido

Felipe Trichez

Policial Militar por profissão, Cidadão por princípio.

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