Bruxismo expõe impacto silencioso que pode levar a danos à saúde bucal

O hábito passa despercebido, mas sustenta um quadro recorrente de sobrecarga muscular e desgaste dentário. O bruxismo, principalmente aquele que ocorre durante o dia, é um comportamento caracterizado pelo apertamento, podendo ter relação direta com o estresse cotidiano e, sobretudo, com padrões de concentração intensa que marcam a rotina contemporânea. Neste contexto, o Núcleo de Dor Orofacial (Nudof), da Unesc, chama atenção para a importância de tratar do assunto.

Conforme o cirurgião-dentista e professor da Universidade, Felipe Veronez, o fenômeno exige uma leitura que vai além da tradicional abordagem clínica. “O bruxismo não é visto como uma patologia, mas como um comportamento muscular. É um hábito, e por isso trabalhamos no controle, não na cura”, afirma.

A análise distingue duas manifestações centrais: o bruxismo de vigília e do sono. Embora compartilhem o mesmo nome, operam em dinâmicas distintas e produzem impactos diferentes ao longo do tempo. O bruxismo de vigília ocorre durante o dia e se manifesta como contração muscular involuntária em momentos de foco, ansiedade ou tensão. “Trata-se de um padrão altamente prevalente, muitas vezes naturalizado, mas que pode atingir níveis prejudiciais quando se torna constante”, cita o professor.

Núcleo articula formação e atendimento na área

A trajetória de estudo sobre o tema na Unesc resultou na criação do Núcleo de Dor Orofacial (Nudof), iniciativa que reúne Ensino, Pesquisa e atendimento especializado. O projeto começou a partir da mobilização acadêmica e do interesse crescente de estudantes pela área. “Primeiro foi preciso plantar a semente. Comecei a falar sobre o tema, e os próprios acadêmicos passaram a procurar esse conhecimento. A partir disso, estruturamos o núcleo”, relata Veronez.

Com cerca de sete anos de atuação, o Nudof consolida um espaço de formação e aprofundamento, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de diagnóstico e manejo de condições relacionadas à dor orofacial, incluindo o bruxismo.

Sobrecarga invisível ao longo do dia

Na avaliação do especialista, a odontologia historicamente concentrou esforços no bruxismo do sono, mais documentado na literatura científica. Porém, o cenário atual reposiciona o debate. “Hoje nos deparamos com o bruxismo de vigília como potencialmente mais prejudicial, justamente pela frequência e pelo tempo de exposição”, sustenta.

Esse comportamento, associado ao ritmo acelerado e à pressão cognitiva, resulta em sobrecarga contínua na musculatura mastigatória. O resultado aparece de forma de dores, fadiga muscular e comprometimento estrutural dos dentes.

Conforme o professor, o bruxismo do sono ocorre de forma involuntária durante o descanso, com episódios de ranger de dentes e contração muscular. “Devido a isso, pode estar associado a fatores secundários como refluxo, apneia do sono e o uso de determinadas medicações, especialmente antidepressivos. Não podemos olhar apenas para o bruxismo. É preciso considerar a saúde geral do paciente, porque muitas vezes ele é um indicativo de outros quadros”, observa Veronez.

Danos cumulativos e formas de controle

Conforme o cirurgião-dentista, o desgaste dentário surge como um dos indicadores, podendo evoluir para fraturas, lesões gengivais e dores musculares persistentes. Esse conjunto compromete não apenas a estrutura bucal, mas também a qualidade de vida.

“Como não se trata de uma doença, mas um comportamento, o manejo exige estratégias de mitigação. Entre elas, destacam-se as placas estabilizadoras rígidas, que redistribuem a carga exercida durante o apertamento ou ranger dos dentes. O paciente não deixa de apertar, mas passa a descarregar essa força na placa, que se desgasta no lugar dos dentes. É uma forma de proteção eficaz”, cita.

Não há, segundo ele, medicação específica capaz de eliminar o hábito, nem indicação ampla para o uso de toxina botulínica, já que o bloqueio da musculatura mastigatória não resolve a origem do problema.

Estresse digital e impacto no sono

Veronez ressalta ainda que o avanço do uso de telas introduz um componente adicional ao cenário. A exposição contínua a estímulos rápidos intensifica o estado de alerta e favorece o bruxismo de vigília, sobretudo em contextos de trabalho e estudo.

“O uso de dispositivos antes de dormir interfere na qualidade do sono, o que pode agravar quadros noturnos. A recomendação passa por reduzir o uso de telas nas horas que antecedem o descanso e manter o ambiente escuro, como forma de preservar o ciclo fisiológico do sono”, relata.

O comportamento também apresenta variação etária. Enquanto o bruxismo do sono é mais frequente em crianças, com tendência de declínio ao longo do crescimento, o de vigília se distribui de forma mais ampla entre adultos, impulsionado por fatores emocionais e cognitivos”, acrescenta o cirurgião-dentista.

Foto: Marciano Bortolin/Agecom/Unesc

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