quinta-feira, 14 maio, 2026
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O Milagre da Vida

Até os 30 busquei a obra-prima que poderia ter criado e não fiz, rascunhei nas lousas, a giz, uma verdade inventiva, tentada, furtada por mim mesma de mim. Organizei a minha vida, tive meus filhos, estudei e me inseri no mercado de trabalho. Mil sonhos, invadindo e exigindo que a construção de uma ponte fosse para sempre, que não desmoronasse jamais.

Havia muitas fantasias me invadindo por dentro e por fora, o futuro incerto exigindo a perfeição. Os dias passaram feito furacão, os meses e anos se escaparam do meu controle, voaram para um espaço desconhecido, restou-me a saudade.

Dos 30 aos 40, busquei o rascunho engavetado, o sonho esquecido. Ausências e faltas me assombraram e me impulsionaram. Parecia que eu não havia feito nada, deixei-me esquecida sem olhar para mim. Acreditei em destino, em princípios e fins. Deixei-me levar pela emoção. Tinha certeza do que queria, mesmo assim a estupidez me condenava, eu era feita de cristal e quebrei com facilidade.

Como são enganosos os sentidos e as estradas parecem não ter fim. Em tudo há uma escolha precedida da indecisão ou de uma certeza tola. Não se prenda ao destino, à ilusória chegada. Chegar ao fim é alcançar o nada, enquanto almejá-lo é quase tudo. Um ponto final temporário.

Antes de ler minha escrita, perceba a inclinação da minha letra, a criação, imprescindível objeto. A obra em si, meras conclusões, uma obra inacabada, sem título e imagens. 

Rumo aos 50, a certeza que poderia morrer um dia me maltratava e o espelho retratava as minhas rugas. Meus cabelos brancos, minha pele se desbotava e precisava cuidar do corpo e da mente. Corri contra a minha velhice, quis voltar aos 30, não poderia admitir que o fantasma da velhice me jogasse nos cantos e fizesse de mim uma velha inútil, desmotivada e pensando que o mundo acabaria.

Levantei a cabeça e fui parar numa academia, atividades para rejuvenescer, queria ter a mesmo pique de outrora. Até que surtiu efeito, comia mais sem engordar. É milagre! Observava de longe as pessoas na luta buscando o que foi perdido, a juventude! Ir para os 50 é resgatar a coragem e querer viver mais do que nunca.

O espelho teimava em me falar que eu continuava bonita e saudável, meu corpo voltava aos 30, sentia-me menina. Há pensamentos que valem por orações e momentos em que qualquer atitude do corpo, a alma está de joelhos.

Observei os mínimos detalhes: o canto das aves, o perfume das flores, os risos infantis, a luz do Sol, os suspiros do vento, os fulgores das estrelas e a criação inteira. Foi a melhor época da minha vida! E aos 60, 70, 80? Acredito que pensarei assim “O futuro pertence a Deus, serei mais alma do que corpo. Amarei com mais intensidade, eis a única coisa que me ocupará até a eternidade. Em mim reinará uma verdade silenciosa.”

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