Criança brinca, estuda, se diverte, faz bagunça, é feliz, tem amigos e tem depressão também. Isso mesmo, tem depressão.
Se engana quem acredita que depressão é doença que acomete apenas adultos. Os índices no aumento da depressão infantil são alarmantes e preocupantes. Nos últimos dez anos, os diagnósticos de depressão na infância e adolescência cresceram de 4,5 para 8%, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Mas o que leva uma criança ou um adolescente a apresentar sintomas depressivos?
Independente da condição social, econômica ou cultural, o transtorno que pode ser diagnosticado em crianças a partir dos quatro anos de idade, pode ter predisposição genética, experiências a episódios traumáticos, principalmente no meio familiar, problemas cognitivos, ser vítima de algum tipo de violência (seja ela física ou psicológica, como o bullying, por exemplo), doenças, lutos ou perdas, dentre outros fatores.
A diferença da percepção dos primeiros sintomas na criança está na maneira como ocorre. Por não saberem nomear tudo que sentem, muitas vezes as crianças acreditam que aqueles sentimentos ruins são normais, e de um modo geral, os pais demoram a perceber e se dar conta da necessidade de ajuda que o filho precisa naquele momento. Os pais devem atentar para os seguintes sintomas: 1) mudanças nas rotinas do sono e do apetite; 2) dificuldade de concentração; 3) irritabilidade; 4) perda de interesse nas atividades prazerosas (brincadeiras, passeios, encontrar amigos); 5) ideia de menos valia (quando a criança se desvaloriza), de rejeição ou culpa exagerada; 6) humor deprimido e ideação ou tentativa de suicídio, dentre outros.
Situações como ansiedade de separação passam a se tornar freqüentes, as crianças não conseguem se ver longe das figuras de referência, como por exemplo os pais ou cuidadores. Dormir sozinho passa a ser traumático, pelo fato de estar assustado ou com medo, o choro passa a ter um fundo de tristeza, ainda, crianças deprimidas sentem necessidade de sempre terem por perto pessoas que confiem. Situações e sintomas que se prolongam de maneira excessiva e persistente merecem atenção especial, principalmente quando falamos de crianças, cuja comunicação muitas vezes é falha.
De qualquer modo, sempre que houver desconfiança dos pais de que algo está errado, o melhor a se fazer é procurar ajuda especializada, neste caso, um médico psiquiatra e/ou um psicólogo. Estes profissionais estão capacitados para realizarem diagnósticos cuidadosos e delicados, pois os sintomas são facilmente confundidos com outros que se apresentam nas fases do desenvolvimento. Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores são as chances de sucesso. Diagnósticos tardios trazem consigo propensões maiores a riscos, como uso de drogas ou suicídio, com a finalidade de eliminar a dor ou o sofrimento.
Com relação ao tratamento, o médico avalia a necessidade do uso de fármacos, que geralmente tem efeitos satisfatórios e são indicados. A psicoterapia é indicada em conjunto com a medicação, para melhora dos sintomas, aumento da autoestima, independência na relação com os pais, busca pelas atividades sociais que lhe causam prazer, melhora no rendimento escolar, enfim, é necessário preparar cuidadosamente um ambiente acolhedor para esta criança, a fim de reorganizar seus pensamentos e compreensão das situações, de maneira mais lúdica possível, porém realista, reestruturando o “mundo” da mesma. A orientação aos pais também serve como facilitadora no processo psicoterapêutico, a participação da família e o comprometimento com a melhora gera resultados mais satisfatórios.
Se não tratarmos o paciente enquanto criança, podemos contribuir para que ele se transforme em um adulto depressivo.


















