Por Alexandra Cavaler
Projeto da EMEF Padre Pacífico Dagostim transforma os 65 anos do município em uma experiência de aprendizagem, descoberta e pertencimento para alunos do 1º ao 5º ano
Antes mesmo de os alunos chegarem à escola, uma semente já havia sido plantada. Na primeira reunião pedagógica do ano, a equipe da EMEF Padre Pacífico Dagostim, no bairro Jussara, em Içara, começou a pensar em como transformar o cotidiano escolar em um espaço ainda maior de descobertas. A pergunta não era apenas o que ensinar, mas como ajudar cada criança a perceber que possui talentos, habilidades e caminhos próprios para crescer. Dessa reflexão nasceu o projeto pedagógico “É Tempo de Florescer. Toda criança é um jardim de possibilidades”, que ganhou, neste ano em que Içara completa 65 anos, um álbum de figurinhas inteiramente dedicado ao município.
Para a diretora da escola, Silvana da Silva Laurindo Minatto, a proposta surgiu do desejo de valorizar aquilo que cada estudante tem de melhor. “Pensamos, enquanto equipe, em uma proposta que pudesse valorizar aquilo que cada criança tem de melhor e ampliar suas possibilidades dentro da escola”.
A escola funciona em tempo integral desde 2023 e, segundo Silvana, a equipe entendeu que uma semente já havia sido plantada. Em 2026, o objetivo era fazer essa proposta avançar, criando oportunidades para que os alunos participassem de mais projetos, olimpíadas, oficinas e experiências.
A ideia de “florescer” está justamente na compreensão de que cada criança possui uma maneira própria de se desenvolver. “Nem sempre uma criança irá se destacar da mesma forma que outra. Algumas demonstram maior facilidade acadêmica; outras encontram seu espaço na música, no esporte, no xadrez, no karatê, na cultura, no Boi de Mamão ou em tantas outras vivências oferecidas pela escola”, explica, ressaltando: “Florescer, para nós, é justamente isso: descobrir habilidades, desenvolver potencialidades e encontrar caminhos”.
Do universo
Foi dentro dessa filosofia que o álbum de figurinhas encontrou seu lugar. A proposta surgiu a partir de uma orientação da coordenação do Tempo Integral da Secretaria de Educação para que as escolas desenvolvessem um trabalho relacionado a Içara. Na Padre Pacífico Dagostim, a equipe percebeu que poderia unir o conteúdo pedagógico a algo que já fazia parte do universo das crianças: os álbuns de figurinhas.
“Como as crianças estavam muito envolvidas com a ideia de álbum de figurinhas, por causa da Copa do Mundo, nós investimos também numa campanha forte de acreditar no Brasil, porque, por mais difícil que parecesse o cenário, era importante acreditar. Eles amavam seus álbuns da Copa e daí surgiu a pergunta: se precisamos conhecer melhor Içara, por que não fazer isso de uma forma lúdica, próxima do universo delas?”, relata.
A resposta foi transformar a história e as potencialidades do município em figurinhas. Para Silvana, a escolha da ferramenta tem relação direta com a faixa etária atendida pela escola, que vai do 1º ao 5º ano, com crianças aproximadamente entre seis e 11 anos. “Um texto longo ou uma biografia extensa dificilmente teria o mesmo poder de envolvimento. Com o álbum, o conhecimento vai sendo descoberto aos poucos. Cada figurinha desperta curiosidade, provoca perguntas, incentiva a leitura e ainda cria momentos de interação entre os próprios alunos por meio das trocas das figurinhas repetidas”.
A intenção, segundo ela, é fazer com que conhecer Içara deixe de ser uma obrigação e passe a ser uma descoberta. “Queremos que eles tivessem vontade de abrir o álbum, olhar para as figuras que já conquistaram, perceber quais ainda faltam e, junto com elas, descobrir mais um pedacinho da cidade onde vivem”.
Uma cidade contada pelas pessoas

O álbum apresenta diferentes faces de Içara. A história do município aparece ao lado das potencialidades econômicas, bairros, escolas, ruas e transformações ocorridas ao longo do tempo. Escritores, atletas, profissionais, personalidades, representantes do esporte e da cultura também ganharam espaço.
A seleção buscou mostrar que a história de uma cidade é construída por muitas mãos. Estão presentes pessoas que se profissionalizaram no futebol, a Copa das Comunidades, equipes tradicionais e conquistas da educação. Também foram valorizados estudantes de outras escolas que representaram Içara em experiências importantes, inclusive fora do país.
Mas há uma particularidade que torna o álbum ainda mais próximo dos alunos: eles próprios estão nas páginas. Há figurinhas das crianças e dos servidores da escola. A expectativa era encontrar colegas, professores, a merendeira, profissionais dos serviços gerais e tantas outras pessoas que fazem parte da rotina escolar. “A escolha foi feita justamente pensando em quem e no que faz parte da vida do município e ajuda a construir sua história”, destaca Silvana. Todo o conteúdo foi adaptado para a faixa etária, com textos pequenos, linguagem simples e apresentação acessível.
Mais do que apresentar personagens e fatos, o álbum pretende provocar uma reflexão sobre o papel de cada pessoa na construção da comunidade. “Queremos que a criança perceba que não existe uma única maneira de ter sucesso ou de contribuir para a sociedade. Há quem floresça na educação, no esporte, na agricultura, no comércio, na indústria, na cultura, na arte ou em tantas outras áreas”.
E é justamente aí que os 65 anos de Içara entram na proposta. A história não é apresentada apenas como uma sequência de datas e nomes, mas como uma trajetória construída por pessoas. “Mais do que decorar datas ou nomes, queremos que ela compreenda que uma cidade é construída por pessoas. Pessoas que estudam, trabalham, empreendem, ensinam, produzem cultura, praticam esporte, cuidam umas das outras e fazem o município avançar”.
Cada figurinha é uma conquista

O álbum não fica restrito às aulas. Ele passou a fazer parte do planejamento pedagógico da escola. Como a rede municipal trabalha com planejamentos quinzenais, os professores são orientados a incluir momentos relacionados ao material. Os estudantes conhecem gradativamente os lugares, pessoas e acontecimentos apresentados.
Ao mesmo tempo, existe uma movimentação espontânea. As crianças mostram as figurinhas conquistadas, conversam sobre elas, trocam as repetidas e procuram as que ainda faltam.
E cada pacote pode representar uma pequena conquista. As figurinhas são entregues de acordo com critérios definidos pelos professores, como realização das tarefas, cumprimento de atividades, objetivos de aprendizagem alcançados, frequência e comportamento adequado. Os professores das oficinas também participam desse processo.
Para Maria Júlia Cândido de Macedo, 11 anos, descobrir a história de Içara dessa maneira tornou a experiência especial. “É muito interessante saber a história do álbum de figurinhas da nossa escola, porque conta tudo o que já foi, o que aconteceu em 65 anos de Içara. Além disso, eu estou gostando muito de trabalhar nesse projeto”’, conta a menina revelando como consegue novas figurinhas: “A gente ganha a figurinha se a gente se comporta, não faltando às aulas e fazendo as tarefas”.
Nicole Ronsani Fabro, 9 anos, e Beatriz Borges Bittencourt, 10, também aprovaram a experiência. Nicole conta que descobriu a existência de muitas escolas no município. Beatriz se surpreendeu ao saber que o primeiro prefeito de Içara não foi eleito, mas indicado.
As meninas também falaram sobre a atual prefeita, apontada no projeto como a primeira mulher a ocupar o cargo no município. “A Dalvânia é bem gente boa para mim. Ela é legal, cumprimenta todo mundo”, contou Beatriz. Sobre conhecer a história da cidade por meio das figurinhas, as duas resumem a experiência em uma palavra: “Maravilhosa”.
Da escola para dentro das casas
O projeto também pretende aproximar as famílias. Em ações promovidas pela escola, a participação dos responsáveis pode render novos pacotes de figurinhas. Na apresentação do projeto na Câmara de Vereadores, por exemplo, as famílias presentes receberam material. Quem foi à escola buscar o boletim na data programada também levou um pacotinho para casa.
O álbum, assim, atravessa os portões da escola. Chega às salas, às mochilas e às famílias. Uma criança pode mostrar uma personalidade, perguntar sobre determinado lugar ou descobrir que os pais e avós conhecem uma história relacionada ao município. “Essa conversa desperta até memórias familiares relacionadas ao município. Então o projeto também cria essa ponte entre escola, criança, família e cidade”, afirma Karoline Ribeiro, Coordenadora pedagógica.
Para a diretora, esse sentimento de pertencimento é um dos grandes objetivos da iniciativa. “Nosso maior desejo é que cada criança consiga se enxergar como esse jardim de possibilidades. E a presença dos próprios estudantes no álbum reforça essa mensagem, pois eles não estão apenas estudando a história do município. Eles já fazem parte dessa história”.
E talvez o maior resultado esteja justamente no sentimento que permanecerá quando todas as páginas forem preenchidas. “Quando uma pessoa sente que pertence a um lugar, ela cria vínculos, aprende a amar, cuidar, preservar e valorizar. Se, ao completar o álbum, uma criança olhar para aquelas páginas e pensar ‘como eu tenho orgulho de morar nesta cidade’, acredito que teremos alcançado um dos nossos maiores objetivos”, conclui a diretora.


















