A Justiça catarinense determinou que a Polícia Militar volte a usar câmeras corporais. A decisão foi recebida por muitos como um avanço, afinal, mais câmeras significariam mais transparência e, consequentemente, uma polícia melhor. Mas tratar esses equipamentos como solução automática para a paz social é ignorar os limites da própria tecnologia.
Questionar o uso de câmeras não significa ser contra transparência, porque segurança pública não se resolve apenas com equipamentos. Adversidades como capacidade de lidar com conflitos continuam existindo com ou sem câmera, e filmar uma crise não significa necessariamente resolvê-la.
O programa de câmeras em Santa Catarina já existiu e foi encerrado em 2024. Havia problemas técnicos, falhas no armazenamento das gravações e questionamentos sobre sua efetividade. Antes de reimplantar tudo de novo com uma canetada, seria racional, e econômico, entender por que falhou antes.
Há também o fator humano, que não é condição financeira, mas tem enorme valor. O policial militar atua sob tensão constante, risco real, pressão psicológica e necessidade de tomar decisões em segundos. A vigilância permanente inevitavelmente altera o comportamento de qualquer pessoa submetida a ela. Isso não significa defender ausência de controle, mas reconhecer que monitoramento constante produz impactos psicológicos sobre seres humanos.
Sistemas digitais funcionam continuamente, mas pessoas não. Policiais precisam de pausas mentais, descompressão psicológica e capacidade de agir com naturalidade em interações. No serviço rotineiro, o policial muitas vezes atua mais para manter a paz do que apenas para impor a lei. Ele resolve conflitos, acalma situações, administra tensões familiares e evita que discussões se agravem, exercendo um papel que vai muito além da repressão penal.
Com vigilância constante, existe o risco de o policial passar a agir não apenas focado em resolver a ocorrência da melhor forma, mas preocupado em como a cena será analisada, editada e julgada posteriormente. Isso pode gerar hesitação onde se precisa de força, burocracia onde se precisa de rapidez, encenação onde se precisa de autenticidade.
O debate talvez não seja apenas sobre polícia, mas também sobre como a vigilância permanente vem se tornando culturalmente normalizada. Hoje convivemos com câmeras nas ruas, nos comércios, nos celulares e dentro das nossas casas. Agora começamos a normalizar câmeras acopladas ao corpo humano durante toda uma jornada de trabalho.
A tecnologia pode ser uma ferramenta importante, e a transparência é necessária em qualquer instituição pública. Mas decisões tomadas longe das ruas não deveriam se sobrepor completamente à experiência operacional de quem enfrenta diariamente os desafios reais da segurança pública. A tecnologia precisa se adaptar à realidade humana e não o ser humano passar a viver em função da máquina.

Felipe Trichez


















