No mar, aquilo que o ser humano perde não desaparece. Uma rede que deixa de ser vista na praia ou no oceano pode permanecer no ambiente, presa entre pedras, carregada pela correnteza, enterrada na areia ou misturada a outros resíduos. Mesmo fora do local onde foi utilizada, pode continuar representando risco à vida marinha.
Para quem passa pela praia, pode parecer apenas lixo. Para a acadêmica de Ciências Biológicas da Unesc Nicole de Moura, porém, cada fragmento encontrado levanta perguntas. De onde veio? Que tipo de petrecho é? Qual o tamanho da malha? Há quanto tempo está no ambiente? E, principalmente, aquele material pode representar uma ameaça para uma espécie que os pesquisadores acompanham de perto?
É a partir dessas questões que a estudante percorre a faixa de areia ao lado do professor e orientador Rodrigo Machado, nas proximidades das fozes dos rios Araranguá e Mampituba, no Sul catarinense.
O trabalho integra a pesquisa “A ocorrência de redes de pesca perdidas em duas regiões de importância para a conservação do boto-de-Lahille”. Desde abril, cinco saídas a campo identificaram 81 fragmentos de redes de pesca, sendo 57 na região da Foz do Rio Araranguá e 24 na Foz do Rio Mampituba.
Para Nicole, encontrar uma rede na areia também significa olhar para o que pode estar acontecendo dentro da água. “Cada petrecho encontrado, a gente pega a coordenada, analisa as características, como comprimento, qual o tipo de petrecho e o tamanho da malha. É um fator importante principalmente quando tratamos do boto, porque, quanto maior a malha, pode nos dizer que o petrecho é mais perigoso para ele”, salienta a acadêmica.
A pesquisa terá duração de um ano, com previsão de 12 saídas na foz do Rio Araranguá e outras 12 na foz do Rio Mampituba. “O objetivo é observar diferentes períodos do ano e identificar possíveis variações na presença dos equipamentos. Os resultados serão relacionados também aos períodos de ocupação dos botos”, acrescenta.
Quando a pesca não termina
Até o momento, foram encontradas redes de malha, de arrasto e de cerco, características que ajudam os pesquisadores a relacionar os petrechos às atividades pesqueiras desenvolvidas na região. Em alguns desses materiais existiam animais enroscados, principalmente peixes e siris.
A cena ajuda a explicar por que uma rede extraviada não é apenas um resíduo. Mesmo fora da atividade pesqueira, o petrecho pode continuar oferecendo condições para o aprisionamento de animais. É o que caracteriza a chamada pesca fantasma, quando equipamentos de pesca perdidos, abandonados ou descartados permanecem no ambiente e continuam interferindo na vida marinha.
“Quando são deixadas no ambiente natural, essas redes continuam pescando. Ficam derivando e qualquer animal ou organismo marinho pode se emaranhar e ir a óbito”, explica Machado.
Além dos peixes, o problema pode afetar tartarugas, aves, mamíferos marinhos e diferentes espécies de invertebrados. No Sul de Santa Catarina, a preocupação ganha uma dimensão ainda mais específica, já que as áreas escolhidas para o estudo estão relacionadas à presença do boto-de-Lahille, espécie ameaçada de extinção no Brasil.
Olhar atento para o que o mar devolve
A equipe percorre um quilômetro da praia durante cada saída de campo. Quando uma rede é localizada, o trabalho começa antes mesmo da retirada. Primeiro, é registrada a coordenada do ponto onde o petrecho foi encontrado. Depois, são analisados o comprimento, o tipo de rede e o tamanho da malha. Também é verificado se há lixo marinho, animais presos ou bioincrustação, que trata-se do acúmulo de microrganismos, algas, plantas e animais. Tudo é registrado em fotografia.
“Também analisamos se há lixo marinho ou incrustação, se há algum animal preso neste equipamento. O levantamento inclui a retirada. Fazemos toda a análise em campo e encaminhamos à lixeira mais próxima”, conta Nicole.
A retirada transforma o trabalho em uma ação que vai além da pesquisa. Ao mesmo tempo em que a rede deixa de representar um risco naquele ponto da praia, passa a fazer parte de um conjunto de dados que pode ajudar a compreender a dimensão do problema.
É um trabalho que exige atenção aos detalhes e disposição para caminhar. Nicole e Machado não sabem o que encontrarão quando iniciam cada saída. Eles podem não encontrar nenhuma rede, mas também podem se deparar com um pequeno fragmento ou, até mesmo, com um equipamento inteiro, carregado de organismos e ainda capaz de provocar o emalhamento de animais.
O projeto, neste momento, não pretende estimar quantos animais poderiam ser capturados pelos equipamentos encontrados. O foco está na identificação e na quantificação dos principais petrechos presentes na beira da praia.
“O assunto é pouco explorado, mas existem estudos do potencial de captura desses petrechos, principalmente em alto-mar. Não estimamos o potencial da pesca fantasma, mas quantificamos os principais equipamentos que encontramos na beira da praia”, afirma a acadêmica.
A ameaça não encerra na areia
Dados da World Animal Protection apontam que cerca de 640 mil toneladas de equipamentos de pesca são deixadas nos oceanos todos os anos. A organização também estima que aproximadamente 69 mil animais marinhos sejam afetados diariamente pelas redes de pesca descartadas.
Segundo a entidade, desde 2012 o número de espécies afetadas pelo lixo marinho aumentou mais de 23%. A pesca fantasma também está associada a um declínio estimado entre 5% e 30% das populações de peixes marinhos. Cerca de 92% dos contatos entre animais marinhos e detritos envolvem plástico.
O problema também permanece depois que a rede deixa de cumprir sua função original. Com a exposição ao sol, à água salgada, às ondas e ao atrito com rochas e outros elementos, os materiais sintéticos podem se degradar e contribuir para a presença de fragmentos plásticos no ambiente.
Os números ajudam a dimensionar a questão, mas é na praia que Nicole percebe o problema de maneira concreta. Cada rede encontrada conta uma história que a pesquisa tenta reconstruir. A acadêmica é natural de Torres, cidade marcada pela relação cotidiana com o mar, uma experiência que ajuda a explicar por que ela pretende fazer com que os resultados não fiquem restritos ao ambiente acadêmico.
“O que eu mais quero é gerar informações e levá-las para as prefeituras. Em algumas vezes, vejo que a limpeza de praias é deixada um pouco de lado. Então, gostaria de levar esses dados a público para contribuir com a tomada de decisões”, afirma.
A intenção é que essas informações possam ajudar a identificar os locais mais afetados, os períodos de maior ocorrência e os tipos de petrechos encontrados. Com isso, o levantamento pode sustentar ações de limpeza, prevenção e conscientização.



















