Antes de girar a chave do carro, existe uma pergunta que quase nunca fazemos: eu estou realmente preparado para dirigir?
É uma pergunta simples. Talvez até desconfortável. Mas ela pode ser mais importante do que conferir o combustível, ajustar os retrovisores ou programar o GPS.
Quando acontece uma tragédia no trânsito, a reação costuma ser sempre parecida. As notícias se espalham rapidamente. As pessoas se solidarizam. As famílias recebem mensagens de apoio. E todos tentam entender o que aconteceu.
Nos últimos dias, nossa região voltou a viver momentos assim, marcados pela dor e pela perda. Situações que inevitavelmente despertam uma reflexão: o que poderia ter sido evitado?
Sem apontar culpados ou analisar casos específicos, existe uma verdade que serve para todos nós: muitos acidentes graves têm algo em comum. Eles começam nas escolhas humanas.
O Direito resume essas falhas em três palavras: imprudência, imperícia e negligência.
A imprudência acontece quando conhecemos o risco, mas decidimos enfrentá-lo mesmo assim. É fazer uma ultrapassagem perigosa, dirigir acima da velocidade, responder uma mensagem no celular ou assumir o volante acreditando que “foi só um gole”.
A imperícia tem outra origem. Ela aparece quando falta preparo ou habilidade para lidar com determinadas situações. Ter uma carteira de motorista não significa dominar todas as circunstâncias que o trânsito pode apresentar. Experiência e competência nem sempre caminham juntas.
Já a negligência costuma se esconder nos pequenos descuidos do dia a dia. É adiar a manutenção do veículo, ignorar um barulho diferente, deixar de usar o cinto de segurança ou transportar uma criança sem a proteção adequada. São atitudes que parecem pequenas até que deixam de ser.
Ao longo da minha trajetória na Polícia Militar, aprendi que o perigo raramente surge sem dar sinais. Na maioria das vezes, ele começa em decisões aparentemente insignificantes. O problema é que, no trânsito, uma escolha feita em poucos segundos pode produzir consequências que acompanham famílias por toda a vida.
É comum atribuirmos a culpa à chuva, à estrada, à curva ou à falta de iluminação. E, de fato, esses fatores influenciam. Mas eles são apenas o cenário. Quem decide acelerar, ultrapassar, usar o celular ou ignorar um risco é sempre quem está ao volante.
Dirigir bem não é confiar demais em si mesmo. É reconhecer os próprios limites. Porque, muitas vezes, o excesso de confiança também representa um perigo.
Existe ainda algo que nunca deveríamos esquecer: no trânsito, nunca dirigimos apenas por nós mesmos. Existe uma família esperando nosso retorno. Amigos preocupados. Filhos, pais, companheiros e pessoas que dependem da nossa chegada.
A prudência não protege apenas quem está dentro do veículo; ela protege todos aqueles que fazem parte da nossa história.
As tragédias que aconteceram na nossa região merecem respeito, solidariedade e memória. Mas também precisam provocar mudança. Afinal, a imprudência, a imperícia e a negligência não começam no momento do acidente.
Elas começam muito antes.
Começam nas escolhas que fazemos antes mesmo de girar a chave.
Felipe Trichez
Policial militar por profissão, cidadão por princípio.


















