terça-feira, 1 setembro, 2026
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O conflito começa na incapacidade de lidar com a frustração
O conflito começa na incapacidade de lidar com a frustração

 

Em Criciúma, em um campeonato infantil de futebol, um pai se desentende com a arbitragem e espera a equipe sair para atirar contra o carro em que ela estava. No dia seguinte, em Orleans, uma discussão banal de trânsito termina com tiros. Dois fatos trágicos de violência que estampam as páginas policiais da nossa região.

Em tese, uma arma de fogo pode ser empregada para defesa diante de uma ameaça letal. Na prática, em episódios como esses, ela aparece como um atalho para quem não aceita uma contrariedade.

As duas ocorrências, do pai que atira contra o carro da equipe de arbitragem ao motorista que atira após uma briga no trânsito, não são sobre legítima defesa. São sobre a incapacidade de algumas pessoas de lidar com a própria frustração.

Na segurança pública, a arma de fogo é ensinada e tratada como um instrumento técnico. Ela exige doutrina, preparo, responsabilidade e critérios rigorosos para seu emprego. No entanto, há quem deixe de usá-la como recurso de proteção para transformá-la em uma extensão do ego.

Existe uma grande diferença entre defender a própria vida e recusar-se a aceitar uma contrariedade. O indivíduo que utiliza uma arma em uma briga de trânsito ou contra pessoas envolvidas em uma partida de futebol não está demonstrando poder; está transformando uma divergência em uma situação de risco extremo.

A arma oferece uma sensação de controle, mas cobra um preço devastador. Aquele que puxa o gatilho para “não levar desaforo para casa” pode perder a liberdade e deixar consequências que ultrapassam muito o momento da própria reação.

No esporte infantil, há ainda uma situação difícil de ignorar: o exemplo. A criança pode esquecer o placar. Pode esquecer quem venceu. Pode até esquecer a decisão que provocou a discussão. Mas pode guardar a lembrança de como um adulto reagiu quando as coisas não aconteceram como ele queria.

Enquanto houver pessoas que tratem a arma de fogo como um atalho para suprir deficiências de maturidade e convivência, a violência continuará vencendo antes mesmo de qualquer debate racional sobre porte de armas.

Segurança pública e cidadania não começam no momento em que a polícia é acionada, mas na capacidade de cada cidadão de suportar o peso da própria frustração sem transformar o espaço público em uma arena.

O respeito não nasce do medo de um disparo, mas da capacidade de viver em sociedade sem precisar de um gatilho para se fazer ouvir.

 

O conflito começa na incapacidade de lidar com a frustração
O conflito começa na incapacidade de lidar com a frustração

Felipe Trichez

Policial Militar por profissão, Cidadão por princípio.

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