terça-feira, 6 janeiro, 2026
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Obesidade: um desafio que vai muito além da balança

Foto: Adobe Stock

A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica que atinge mais de 200 milhões de pessoas em todo o planeta. Mas, segundo o médico endocrinologista e professor do curso de Medicina da Unesc, Davi Francisco Machado, a compreensão sobre o tema ainda é cercada de simplificações e julgamentos. “Quem não trabalha com isso às vezes pensa: ‘ah, eu comi demais’, ‘é só eu fechar a boca e correr 10 quilômetros que resolve’. Mas não é tão simples assim”, afirma.

De acordo com o especialista, a obesidade é resultado de um conjunto de fatores. “Tem muitos aspectos genéticos, tem envolvimento com aspectos psicológicos, faixa etária, se está na menopausa ou não. Então, não é tão simples”, explica.

Além disso, a relação com a comida é um ponto importante a ser observado de perto quando o assunto é obesidade. “A gente tem um aspecto de comida afetiva, que te remete quando você era criança. Muitas vezes, você trabalhou o dia todo, chega em casa cansada. Você vai querer comer uma alface com tomate? Não, você quer uma pipoquinha, um chocolatinho gostoso que te remeteu a um dia feliz, e isso acaba sendo um ciclo”.

Para o médico, embora a herança genética tenha influência, ela não é determinante. “Exclusivamente genética, é raro. Existem síndromes específicas, mas o mais comum é ter uma história familiar de deposição de gordura. E é difícil separar o que é genético e o que é ambiental, porque a criança acaba comendo o que os pais estão comendo”, avalia.

Essa combinação de fatores explica por que o enfrentamento da obesidade exige acompanhamento médico e atenção constante. “É um fator de risco para basicamente tudo. Câncer, infarto, AVC, diabetes, hipertensão. Ele permeia quase todos os sistemas, quase todas as áreas. Uma luta que temos é mostrar para a população que a obesidade não é questão estética”, avisa.

Impactos físicos e emocionais

O excesso de peso traz repercussões diretas para o corpo e para a mente. “A gente vive em uma sociedade que luta contra a obesidade, mas valoriza muito o ‘ser magro’. É difícil ver um outdoor com uma pessoa obesa que não seja em um aspecto de doença. Então, existe essa culpa. Eu tenho pacientes que não gostam de se ver no espelho. A questão da autoestima afeta muito”, conta.

Fisicamente, a sobrecarga é constante. “Dependendo da deposição de gordura, aumenta o risco. Se a diferença abdominal é aumentada, aumenta o risco de infarto. Essa gordurinha que está aqui, também está no coração”, exemplifica o médico.

Entre os principais desafios, o endocrinologista cita o imediatismo e o desgaste emocional. “As pessoas procuram de forma tardia. É muito comum no consultório as pessoas falarem ‘tu és a minha última esperança’. Elas já passaram por dietas muito restritivas, procedimentos desnecessários, e chegam desesperançosas”.

Segundo ele, o tratamento requer acompanhamento especializado e paciência. “Às vezes o paciente vai uma vez contigo, vai no retorno, mas, quando a expectativa dele distorce um pouquinho, ele abandona. É isso que a gente tenta mudar, para entender que estamos juntos e queremos qualidade de vida para ele”, destaca.

O endocrinologista compara o processo a um relacionamento: “Você precisa ser real, pensar a longo prazo. Esse relacionamento é contigo, com o teu corpo. Mesmo com vontade e disciplina, ainda assim é difícil. Às vezes é necessário remédio, mas precisa ser um processo a longo prazo”, frisa.

Canetas e medicamentos

Sobre o uso das chamadas canetas emagrecedoras, o médico destaca que elas foram inicialmente desenvolvidas para o tratamento do diabetes e, depois, observou-se o efeito sobre a perda de peso. “Elas atuam no estômago, dando a sensação de saciedade. São ótimas, tanto para o diabetes quanto para o peso. Só que se o teu maior problema é a ansiedade, não adianta o estômago ficar mais apertadinho. Isso vale também para a bariátrica”, explica.

O endocrinologista lembra que não há uma receita única. “Se todo mundo fica usando o mesmo remédio e se deu bem, não quer dizer que vai funcionar comigo. Isso só o teu médico vai saber te dizer. Não é uma receita de bolo” comenta, como alerta.

Entre os efeitos colaterais, ele cita o enjoo e o intestino preguiçoso. “Se você simplesmente usa o remédio sem mudar a alimentação, pode ficar desnutrido, fraco e até ir para o hospital. E se não faz atividade física, pode perder massa muscular e ficar com aquele aspecto doente”, ressalta.

Para melhores resultados a longo prazo, o professor da Unesc reforça que o tratamento da obesidade precisa ser multidisciplinar. “Cada pessoa é de um jeito diferente. Então, a equipe multiprofissional é importantíssima. O nutricionista pergunta o que tu gostas de comer, o psicólogo trabalha o aspecto emocional, e o profissional de educação física orienta o exercício. E a gente precisa destacar o trabalho do Sistema Único de Saúde. No SUS, principalmente aqui na nossa região, vários pacientes têm essa possibilidade”.

O aumento da obesidade infantil preocupa. “A criança observa o nosso comportamento. Já tive paciente que a mãe dizia que ele só comia besteira. Mas a criança não ia ao mercado. Tinha disponível em casa. Então, parte de nós termos bons hábitos, porque somos exemplos”, observa o médico.

Nos idosos, a atenção é redobrada. “É um desafio porque existe um termo que é obesidade sarcopênica, que fala da massa muscular. Esse paciente está com obesidade, mas com pouca massa muscular. Está com dor e não consegue fazer exercício. Às vezes, o paladar não está bom, ou o aposento não permite uma alimentação adequada. Por isso, é importante o carinho do cuidado com a alimentação e estimular que ele faça atividade física. Só precisa sair da zona de conforto”.

Para Davi, o processo de emagrecimento deve partir da própria pessoa. “Você quer emagrecer ou ser emagrecido? Porque no emagrecer, você está ativo nesse processo. Ser emagrecido é esperar cair do céu. Vão ter coisas que vão depender de você, mas o resultado é muito bom para mudar a tua relação com a comida, para não ter medo de comer”, completa.

O endocrinologista Davi Francisco Machado foi um dos entrevistados do programa CheckUp, da Unesc Rádio, em 2025, sob comando da jornalista Elis Amorin. Confira na íntegra:

https://www.youtube.com/watch?v=IhqUz3TQN0w

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