terça-feira, 18 agosto, 2026
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O olhar que buscava entender

Ativista iraniana durante protesto nos Jogos Olímpicos (Foto: AP)

Há exatamente 10 anos, em agosto de 2016, integrei a Força Nacional de Segurança Pública durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Um dos serviços daquele período só fez sentido para mim horas depois de ter terminado.

Em uma dessas ocasiões, fui escalado para o policiamento à paisana, em meio ao público, durante uma partida de vôlei masculino entre Irã e Egito, no Ginásio do Maracanãzinho.

O trabalho era circular pelas arquibancadas e corredores, observar comportamentos fora do padrão e manter os olhos abertos para o que ninguém mais estivesse prestando atenção.

Pouco depois do início da partida, eu e uma colega de serviço começamos a fazer a ronda pelos corredores do ginásio. Foi quando notamos um grupo de homens, visivelmente alterados, discutindo em um idioma que nenhum de nós dois reconhecia.

Chamou atenção o simples fato de estarem ali, de costas para o jogo, mais preocupados em discutir entre si do que em acompanhar a partida. Ficamos de olho, discretamente, até que o grupo se movimentou.

O grupo tentou acessar um setor da arquibancada sem o ingresso correspondente e passou a agir de forma hostil com a funcionária do controle de acesso. Diante da agressividade e da tensão crescente, acionamos imediatamente a equipe fardada do policiamento.

Durante a abordagem, os homens apontavam insistentemente para um ponto específico da arquibancada inferior. Percebemos então que a questão já não era o ingresso: os homens apontavam para uma mulher que segurava um cartaz, claramente contrariados com o que ele dizia.

Seguimos com o serviço, e a dimensão real daquele momento só ficou clara horas depois, quando abri as redes sociais e acompanhei as notícias.

Aquela mulher na arquibancada era Darya Safai, ativista iraniana. O cartaz e a camiseta que ela exibia traziam a mensagem: “Deixem as mulheres iranianas entrarem nos estádios”, um protesto contra as restrições impostas às mulheres no Irã para frequentarem determinados eventos esportivos masculinos.

Foi então que entendemos também a origem da tensão que havíamos observado: os homens eram iranianos e discordavam da manifestação de Safai. O que, para nós, parecia apenas mais uma situação de desentendimento dentro do ginásio tinha, na verdade, origem em um protesto que ia muito além daquele ginásio.

Ao observar aquele comportamento atípico nos corredores e decidir acompanhar o grupo, a intenção era simplesmente manter a ordem pública e proteger os trabalhadores do evento. Não sabíamos, ainda, quem era a mulher para quem aqueles homens apontavam.

Talvez essa seja uma das particularidades do trabalho policial: muitas vezes, é preciso observar, avaliar e agir sem conhecer toda a história. Primeiro se percebe o que está fora do padrão. Depois se procura compreender o que realmente está acontecendo.

Dez anos depois, ainda me lembro perfeitamente de ter estado diante daquele cartaz. Naquele momento, eu sequer sabia o que estava escrito nele.

 

“Deixem as mulheres iranianas entrar nos estádios”, diz a faixa (Foto: Orlando Barria)

Felipe Trichez
Policial Militar por profissão, Cidadão por princípio.

 

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