terça-feira, 5 maio, 2026
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Lontra reaparece no Rio Mãe Luzia e indica possível recuperação ambiental

Por Alexandra Cavaler

 

O registro de uma lontra no Rio Mãe Luzia, em Treviso, na última sexta-feira, dia 1º, chamou a atenção de moradores e especialistas e pode representar um sinal importante, ainda que pontual, de recuperação ambiental em um dos rios mais impactados pela poluição na Região Carbonífera.

O animal foi flagrado em vídeo enquanto caçava peixes, comportamento considerado essencial para avaliar as condições do ambiente. Para o biólogo da Faunativa Criciúma, Vitor Bastos, as imagens permitem identificar a espécie como a lontra-neotropical (Lontra longicaudis), típica da América do Sul. “É um animal com características bem marcantes, como o corpo alongado, a cauda comprida e o focinho mais achatado. É uma espécie que chama atenção e que muitas pessoas consideram um animal bonito, mas que é difícil de observar na natureza”, explica.

Indicador ambiental importante

A presença da lontra em um rio historicamente poluído levanta uma questão central: o ambiente está se recuperando? Segundo o biólogo, a resposta passa diretamente pela disponibilidade de alimento e qualidade da água. “O fato de o animal estar caçando e conseguindo capturar peixes na filmagem é um indicativo importante. A lontra é um predador e depende de alimento, então isso mostra que, pelo menos naquele trecho, há condições ambientais mais favoráveis”, afirma Bastos ressaltando que a espécie ocupa o topo da cadeia alimentar, o que torna sua presença ainda mais relevante. “Quando temos um carnívoro de médio porte como a lontra em um ambiente, isso indica que existe uma cadeia alimentar funcionando ali. É um sinal positivo, sem dúvida.”

Recuperação ainda não é geral

Apesar do indicativo positivo, o especialista faz um alerta: a presença do animal não significa que todo o Rio Mãe Luzia esteja recuperado. “Em muitos casos, rios como esse funcionam como uma espécie de corredor para as lontras, como se fossem uma ‘rodovia’. Elas utilizam esses locais para se deslocar até áreas com melhor qualidade, como açudes e trechos mais preservados”, explica.

Vitor também destaca que, em áreas mais poluídas, a tendência é que o animal apenas transite, sem permanecer por falta de alimento. “No caso desse registro, é interessante porque o trecho parece ter melhores condições, inclusive com presença de peixes.”

“Difícil ver”

Embora o registro chame atenção, a presença da lontra não é inédita na região, o que é raro, de acordo com o biólogo, é conseguir filmá-la. “Temos registros em várias cidades da região, como Criciúma, Forquilhinha, Içara, Cocal do Sul e outras áreas com açudes e nascentes mais preservadas. O que acontece é que é um animal muito arisco, com hábitos principalmente noturnos, o que dificulta bastante a observação. Cabe ainda ressaltar que a fragmentação ambiental e a presença de rodovias também dificultam a circulação da espécie e aumentam os riscos”.

O que o rio precisa para sustentar a espécie

  • Qualidade da água
  • Presença de mata ciliar
  • Disponibilidade de alimento

“Sem esses três pontos, o animal não consegue se estabelecer. A lontra depende diretamente de um ambiente equilibrado”, reforça o biólogo.

Desafios ainda são grandes e monitoramento é essencial

Apesar do possível sinal de recuperação, o Rio Mãe Luzia ainda enfrenta problemas históricos, principalmente relacionados à poluição. “O principal desafio ainda é o controle do despejo de esgoto e resíduos. Isso envolve ações estruturais que dependem de planejamento e investimento das prefeituras, e é um processo que leva tempo, mas há perspectiva de melhora a longo prazo. Inclusive, a tendência é que, com o passar dos anos e com as ações corretas, os rios da região se tornem mais saudáveis”, relata Bastos destacando que para confirmar se a presença da lontra é um caso isolado ou parte de um processo de recuperação é preciso a realização de estudos ambientais. “Pesquisas com peixes e anfíbios são fundamentais, porque essas espécies são excelentes indicadoras da qualidade da água. Monitorar esses grupos ajuda a entender melhor a saúde do rio”, explica.

Além dos estudos técnicos, o biólogo destaca o papel da população no monitoramento da fauna. “Hoje as pessoas registram mais esses animais, filmam e compartilham. Isso ajuda muito a entender se esses registros estão se tornando mais frequentes”, afirma.

Para Vitor Bastos, o registro da lontra representa mais do que um momento curioso, é um possível símbolo de transformação. “Ver um animal como esse em um rio com histórico de poluição é algo muito significativo. Pode ser um indicativo de que estamos no caminho da recuperação, ainda que de forma gradual”, conclui.

 

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