sexta-feira, 21 junho, 2024
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Libras: a linguagem da corporalidade que inclui e integra

Unesc conta com intérprete de libras para o atendimento de estudantes em sala de aula - Foto: Nilton Alves

Por Alexandra Cavaler

Essa forma de comunicação compõe todos os requisitos científicos para ser considerado instrumento linguístico de poder e força

 

A comunicação em libras faz parte de um direito humano e linguístico. Direito à informação, direito de viver em sociedade. Além disso, se não houver libras na comunicação, o surdo pode até estar integrado, mas nunca estará incluído. Sem libras ele não pode expressar suas opiniões, vontades e nem mesmo participar democraticamente. Assim Diogo da Luz, tradutor, intérprete de libras português, especialista em libras, descreve a importância da linguagem de sinais à inclusão.

A Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis) define a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como a língua materna dos surdos brasileiros e, como tal, pode ser aprendida por qualquer pessoa interessada pela comunicação com esta comunidade. “Como língua, está composta de todos os componentes pertinentes às línguas orais, como gramática, semântica, pragmática, sintaxe entre outros, preenchendo, assim, os requisitos científicos para ser considerado instrumento linguístico. Possui também elementos classificatórios identificáveis numa língua e demanda prática para seu aprendizado, como qualquer outra”, explica Diogo, acrescentando: “Todos os seres humanos nascem com os mecanismos da linguagem específicos da espécie, e todos os desenvolvem normalmente, independente de qualquer fator racial, social ou cultural”. Uma demonstração desta afirmação se evidencia nas línguas oral-auditiva (usadas pelos ouvintes) e nas línguas viso-espacial (usadas pelos surdos).

Ainda de acordo com o especialista em libras, ao contrário do que muitas pessoas pensam, a língua de sinais não é universal, cada país tem a sua. “A língua de sinais teve origem na França, na segunda metade do século XVIII. O francês Charles-Michel de L´Epée foi o primeiro a reconhecer nos surdos a capacidade de se comunicarem com o sistema viso-espacial. Isso foi compreendido por ele nos surdos que viviam nas ruas de Paris e por meio dessa percepção, ele criou sinais metódicos que foi uma combinação da língua de sinais francesa com a gramática do Francês oral mais o alfabeto digital”, revelou Diogo.

 

O surgimento e como ocorre a comunicação

No Brasil, a educação dos surdos e o surgimento da Libras tem ligação com D. Pedro II quando, no ano de 1855, convidou para o Brasil um professor francês que se chamava Ernest Huet (Hernest, em algumas fontes), surdo desde os 12 anos de idade, para que o mesmo iniciasse a educação de surdos aqui. “Huet foi pioneiro em nosso país para a educação de surdos e o trabalho dele permitiu que uma língua de sinais própria do Brasil fosse desenvolvida, assim a atual Libras surgiu mediante a junção de sinais da língua francesa com sinais utilizados pelo abade L’Épée. Esse sistema de ensino implantado por Huet no Brasil predominou até o começo do século XX”, contou Wanderson Lima, tradutor intérprete de libras português.

Questionado sobre a maneira pela qual a comunicação por meio da Libras ocorre Lima assinala que acontece na corporalidade, presencialmente e olho no olho, através de uma comunicação viso-espacial,  diferentemente das línguas orais. “Também é possível a comunicação a distância por vídeos chamadas em que os interlocutores sejam fluentes em libras ou então, em ambas as ocasiões, intermediados pelo profissional tradutor intérprete de libras. Falamos em comunicação que a língua de sinais possui exatamente esse sentido, ou seja, de ser o meio de um grupo de indivíduos poderem comunicar-se, pois é através dela que as pessoas surdas trocam entre si, e até mesmo com as pessoas que já aprenderam a interpretá-la. Aliás, isto vem ocorrendo de forma cada vez mais significativa”, ressaltou.

Já Diogo pontua que por se tratar de comunicação por gestos, muitos acham que ela deveria ser igual para todos os surdos. Outros acham que a comunidade surda do mundo, por ser pequena, deveria fazer uso de apenas uma língua de sinais, até mesmo, por se tratar de uma linguagem icônica (representativa). “Mas não é assim, e explico o motivo: primeiro que a língua de sinais não é baseada em gestos ou mímicas, trata-se de uma língua natural, com léxico (léxico é todo o conjunto de palavras que as pessoas de uma determinada língua têm à sua disposição para expressar-se, oralmente ou por escrito) e gramática próprios. Segundo, que cada comunidade de surdos desenvolveu a sua própria língua de sinais, tal como cada povo desenvolveu sua língua oral”.

 

O Mercado de trabalho para a pessoa surda

Bianca Zacarias, presidente da Associação de Surdos de Criciúma (ASC), comenta que a Lei 8.213/1991, que estabelece cotas para PCDs, determina que empresas com mais de 100 colaboradores preencham de 2% a 5% dos cargos com beneficiários reabilitados do INSS ou pessoas com deficiência. “Embora, entre os PCDs, os surdos, na maioria das vezes, sejam selecionados numa variedade de setores, mesmo assim, o mercado ainda não está preparado para incluir de fato qualquer que seja o profissional surdo. Algumas poucas empresas já promovem capacitações e treinamentos internos voltado ao uso da libras para esses funcionários possam interagir. Porém, ainda é comum vermos empresas que admitem surdos, mas não criam estratégias para fazer com que o mesmo receba as informações que são postas em reuniões de equipe, planejamento, além de eventos ou treinamentos, uma vez que não tem um profissional habilitado para efetivar a acessibilidade linguística de libras. Também há casos onde as empresas contratam pessoas surdas, mas não aceitam os sinalizantes, querem que seja surdo oralizado (DA -Deficiente Auditivo) e que escute através de aparelho auditivo”.

 

Unesc na vanguarda com intérprete em sala de aula

Na vanguarda, a UNESC efetiva ações que envolvem colaboradores e alunos. Dois profissionais, técnico administrativos intérpretes de libras fazem a interpretação presencial dos acadêmicos surdos (cinco alunos nos cursos de Artes, RH, Processos Gerenciais e Pedagogia), bem como aulas de libras por meio do curso “X Libras” para servidores e acadêmicos. Além disso, aulas de português como segunda língua para surdos.

Zélia Medeiros Silveira, Coordenadora do Setor de Apoio Multifuncional de Aprendizagem (Sama) apresenta o Sama como um setor de apoio que atende as pessoas com deficiência, com transtorno de aprendizagem e com dificuldades de aprendizagem. “Entre os trabalhos ofertados está o atendimento psicopedagógico, que atende os estudantes com deficiência e dificuldades de aprendizagem em sessões semanais, para que eles venham a melhorar o seu desempenho nas disciplinas e que se sintam integrados ao ambiente acadêmico. O segundo atendimento, também semanal, é o psicológico voltado aos estudantes com problemas emocionais que estejam afetando o seu desempenho nas disciplinas”.

A coordenadora ainda destaca o serviço de libras por meio de intérpretes, contratados para o atendimento aos estudantes surdos em sala de aula. “Esse profissional acompanha o acadêmico e faz a interpretação das aulas. Além disso, o estudante surdo tem a possibilidade de monitorias extraclássicas, para que possam ser atendidos e, consequentemente, melhorar o seu processo de comunicação. Esses estudantes também têm a possibilidade de participar de formação no curso de português para surdos, porque a língua dos surdos ela é diferente e faz com que o estudante, por vezes, precise estar instrumentalizado na língua portuguesa para poder acompanhar todos os processos pedagógicos. E ainda podem participar do XLibras, que é um grupo de estudos e de pesquisa destinado a acadêmicos surdos, não surdos e ouvintes, ou seja, todos os acadêmicos podem participar. Até porque nós precisamos formar novos intérpretes e também fazer com que os colegas destes alunos aprendam a língua de sinais para melhorar a comunicação com a comunidade surda”.

Fonte: Jornal Tribuna de Notícias

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