Sindicato dos Bancários de Criciúma e Região realizam um ato público na manhã desta terça-feira (17) para denunciar um quadro sistemático de assédio moral que, segundo relatos, já levou mais da metade do quadro de trabalhadores a necessitar de tratamento médico. A manifestação, organizada com apoio do Sindicato dos Bancários de Criciúma e Região e Movimento Sindical e expôs práticas que incluem humilhações diárias, perseguição a quem não cumpre metas abusivas e deboche do sofrimento dos subordinados.
Com cartazes e panfletos, os bancários chamaram a atenção de clientes e pedestres para o que descrevem como um “ambiente de trabalho tomado pelo medo”. De acordo com as denúncias, funcionários chegam a “tremer e chorar” só de ouvir o nome do gerente geral ser chamado.
“É uma gestão baseada na humilhação pública, na perseguição sistemática e na sobrecarga. O resultado é uma crise de saúde coletiva: mais da metade da equipe está em tratamento médico em decorrência da pressão psicológica”, afirmou um dos bancários que participou do ato, mas preferiu não se identificar por medo de represálias.
“Se não faz, ele coloca outro que faça”
As denúncias apontam o gerente geral da unidade como o principal agente de um padrão de assédio moral que se repete diariamente. A ameaça de substituição é utilizada como principal ferramenta de coerção, com a frase “se não faz, ele vai colocar outro funcionário que faça” sendo repetida constantemente.
Funcionários que se negam a cometer irregularidades para bater metas são perseguidos, enquanto os que apresentam sinais de sofrimento viram alvo de deboche. “Só se satisfaz quando vê que o funcionário está doente, debocha e tira sarro. Já fez comentários sobre mania e estresse de alguns dizendo que é bom que gosta de gente ligada, que faz, isso é bom”, relatou um dos manifestantes.
O comportamento descrito encontra decisões recentes da Justiça do Trabalho contra o Bradesco.
Isolamento forçado e vigilância paranoica
A denúncia também revela a imposição de uma cultura de isolamento. O gerente é acusado de proibir que colegas se ajudem mutuamente, utilizando frases de extremo teor agressivo como “deixa sofrer um pouco que é bom”, “vou ter que sangrar alguém” e “te vira”.
Em diversas ocasiões, funcionários foram deixados sozinhos na agência, sem qualquer suporte, sob a justificativa de que “têm que se virar”. A prática contraria normas de segurança e saúde no trabalho, além de ferir a dignidade dos empregados.
Os relatos descrevem ainda uma vigilância paranoica: o gerente anda atrás dos funcionários, passa nas mesas para fiscalizar o que estão fazendo, vai até a cozinha para monitorar pausas e grita com frequência. Quem é flagrado sorrindo ou trocando palavras com colegas vira alvo de perseguição.
As humilhações ocorrem também diante de clientes, quase que diariamente. O gerente é descrito como grosseiro com funcionários em público e já foi flagrado mandando clientes embora, com frases como “manda embora que isso só toma tempo”. A agência estaria perdendo clientela justamente por causa da postura do gestor, e há relatos de que clientes já reclamaram do tratamento recebido.

Pressão por metas e adoecimento em massa
Um ponto de extrema gravidade é a proibição de atendimento a clientes digitais, que são represados porque o atendimento “não rende”. O único caixa da agência teria sido proibido de abrir o caixa, numa tentativa de forçar o atendimento a ser direcionado apenas para o que o gerente considera “produtivo”. A medida, além de ilegal, fere o Código de Defesa do Consumidor.
A gestão é marcada por insinuações constantes de que os funcionários são “malandros” ou “enrolam”. Frases como “esse teu servicinho fácil aí” ou “não tem nem o que fazer” são usadas para desqualificar o trabalho dos subordinados.

Medo de represália e apoio sindical
O resultado desse ambiente tóxico é um quadro de saúde devastador. Mais da metade dos funcionários da agência de Içara está em tratamento médico, e há relatos de que alguns já apresentam reações físicas ao estresse.
O medo de represália, no entanto, impede que as vítimas denunciem formalmente. O banco possui um Canal Corporativo de Denúncias (0800 776 4820), mas os funcionários temem que qualquer reclamação seja identificada e resulte em perseguição ainda maior.
A diretoria do Sindicato dos Bancários de Criciúma e Região participou do ato e se colocou à disposição para acolher os trabalhadores e buscar a apuração dos fatos junto ao Ministério Público do Trabalho.
O ato desta terça-feira em Içara escancara uma realidade que, segundo entidades sindicais, persiste em diversas unidades do Bradesco pelo país: a utilização do sofrimento como ferramenta de gestão. Resta saber se, desta vez, o banco irá investigar a fundo ou se limitará a uma resposta institucional protocolar, enquanto mais da metade de seus funcionários adoece.


















