segunda-feira, 5 outubro, 2026
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SC-108: obras avançam, mas fauna fica sem passagem segura

Seis animais foram atropelados em um intervalo de aproximadamente dois meses no trecho próximo à obra - Foto: Nilton Alves

A duplicação e as intervenções realizadas nas rodovias são planejadas para melhorar a estrutura viária, ampliar a capacidade de tráfego e aumentar a segurança de quem circula pelas estradas. Mas, em meio ao concreto, ao asfalto e ao aumento do fluxo de veículos, existe uma população que também precisa atravessar esses caminhos: a fauna silvestre. Na SC-108, entre Criciúma e Cocal do Sul, o crescimento dos atropelamentos acende um alerta para um problema que, segundo o biólogo Vitor Bastos, poderia ser reduzido com medidas previstas ainda na etapa de elaboração dos projetos.

Bastos, da Fauna Nativa Catarinense, acompanha há anos os atropelamentos de mamíferos silvestres na região e mantém uma tabela com registros confirmados, fotografias e a localização exata dos animais encontrados mortos. Segundo ele, já são mais de 60 registros no trecho entre Criciúma e Orleans, sendo que uma parcela significativa ocorreu nos últimos três anos. Os dados, conforme o pesquisador, apontam aumento das ocorrências principalmente entre Criciúma e Cocal do Sul.

O problema ganhou uma dimensão ainda maior nos últimos meses com o registro de mortes de capivaras. De acordo com Bastos, seis animais foram atropelados em um intervalo de aproximadamente dois meses entre o bairro Mina Brasil e a região de São Simão. Por serem animais de grande porte, os acidentes representam risco não apenas para a fauna, mas também para quem trafega pela rodovia.

“Capivaras têm um grande porte, podem chegar a mais de 60 quilos. No Brasil já houve óbitos de pessoas que provavelmente estavam usando motos, atropelaram uma capivara e acabaram sofrendo acidente. Pode morrer tanto o animal como uma pessoa. Então é muito perigoso isso. O meu maior receio é que isso aconteça logo nessa rodovia”, alerta o biólogo.

Corredor de circulação da fauna

 A preocupação não se limita às capivaras. Segundo Bastos, a região possui extensas áreas de vegetação nativa ao longo da SC-108, formando um corredor utilizado por diferentes espécies. Além das capivaras, já foram registrados atropelamentos de quatis, gambás-de-orelha-branca e outros mamíferos. “Semana passada teve dois indivíduos de mão-pelada atropelados, uma dupla que foi atropelada junta. Teve uma cutia também, um dia depois, tudo na região de São Simão, bairro São Simão”, relata.

Para o biólogo e pesquisador, a localização dos registros permite identificar os pontos de maior circulação. Os animais costumam atravessar justamente onde há áreas de mata dos dois lados da rodovia ou, no caso das capivaras, onde existem cursos d’água.

Um dos pontos de atenção está nas proximidades da rotatória da SC-108 com o Anel Viário, onde há cursos d’água utilizados pelos animais. Bastos afirma já ter observado capivaras atravessando a rodovia e situações em que os animais quase foram atingidos por veículos. “Eu vi muitas passando e quase sendo atropeladas. Então é necessário fazer algo antes que o pior aconteça, que alguma pessoa venha a óbito por causa dessa frequência de animais tentando cruzar as rodovias”, afirma.

Obras sem estruturas para a fauna

 Para o biólogo, um dos principais problemas está na forma como as obras rodoviárias são planejadas. Os projetos são elaborados pensando na estrutura necessária para os veículos e na circulação humana, mas, segundo Bastos, medidas para garantir a passagem segura dos animais raramente aparecem como parte preventiva dessas intervenções.

A implantação de uma rodovia ou sua duplicação modifica o ambiente, fragmenta áreas de vegetação e pode interromper caminhos utilizados historicamente pelos animais. Com o aumento do fluxo de veículos, a travessia passa a representar um risco ainda maior. “Na hora de fazer revitalização na rodovia, é preciso pensar nisso. O número de atropelamentos de capivaras aumentou muito nos últimos dois meses e isso é muito preocupante para a vida silvestre e para a segurança das pessoas e de seus veículos”, destaca.

Bastos defende que as passagens de fauna sejam consideradas ainda durante a elaboração dos projetos. Uma das alternativas apontadas por ele é a combinação entre cercamento das áreas de mata e estruturas subterrâneas que direcionem os animais para pontos seguros de travessia. “Cercamento ao longo da rodovia, das áreas de mata, que afunilam os animais a passarem por alguma passagem por baixo da rodovia”, explica.

Segundo o biólogo, a estrutura necessária para a região não precisaria representar uma intervenção de grandes dimensões. Como não há atualmente espécies de grande porte, como anta, onça-pintada ou lobo-guará, que exigiriam estruturas maiores, seria possível utilizar passagens dimensionadas para os animais existentes na região.

“A gente pode fazer uma tubulação menor, que não vai ser um custo gigantesco, fazer várias ao longo da SC-108. Vai ser um bem para a biodiversidade e também para a segurança de seres humanos no geral”, avalia.

Problema pode ser reduzido

 

Passagem de fauna é uma das possibilidades que podem ser incluídas nos projetos para evitar mortes de animais

Além da morte dos animais, os atropelamentos podem provocar acidentes quando motoristas tentam desviar ou acabam atingindo a fauna. Em uma rodovia com fluxo crescente, a presença de animais de médio e grande porte amplia o risco de colisões.

Por isso, o pesquisador defende que a solução seja pensada de forma preventiva, antes que novas ocorrências sejam registradas. “Não tem como a gente viver nossa vida sem tentar resolver esse problema que está ocasionando mortes de animais, que não têm culpa de terem que passar naquelas rodovias. Então é necessário a gente, como sociedade, tentar resolver esse problema, que é possível resolver, sim”, afirma Bastos.

Para ele, a preservação da fauna nativa precisa ser considerada como parte da própria segurança viária. O monitoramento dos pontos de atropelamento permitiria identificar os locais mais utilizados pelos animais e direcionar as estruturas para essas áreas.

Estado e município são procurados

 A reportagem procurou o Governo do Estado, responsável pela obra, para esclarecer por que o projeto original de duplicação da SC-108 não incluiu a instalação preventiva de passagens de fauna e cercamentos direcionadores. O Estado também foi questionado se, diante do aumento dos atropelamentos, existe previsão no cronograma para realizar modificações estruturais na rodovia antes da conclusão definitiva das obras, prevista para 2026. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.

A Prefeitura de Criciúma também foi procurada para informar se tem conhecimento das mortes de capivaras na respectiva região após o avanço da duplicação da SC; se recebeu denúncias ou solicitações sobre o problema e se pretende realizar levantamento, acionar órgãos ambientais ou encaminhar uma solicitação formal ao Governo do Estado para avaliar a situação.

O município também foi questionado sobre a possibilidade de cobrar a adoção de medidas como passagens de fauna e sinalização no trecho. Até o fechamento da edição, a Prefeitura também não havia se manifestado.

 

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