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Um pé de jabuticaba

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Acordava cedo, tomava café e sentava na sacada apreciando um pé de jabuticaba altíssimo, com suas frutinhas roxas decorando a planta mais bonita da minha rua. Sobre sua copa milhares de passarinhos, que se alimentavam e seus cantos pareciam músicas para as casas vizinhas, um encanto. Um dia seu Hilário resolveu convidar o pessoal da rua para uma festa que aconteceria embaixo do pé de jabuticaba. Todos se vestiram com a melhor roupa, havia embaixo uma bela mesa com uma toalha italiana de linho branco e bordados dourados, um belo vaso de rosas e o frescor das tardes primaveris embelezando a festa. De repente o pé de jabuticaba começou a crescer. Cresceu tanto que chegou até o céu! Olhávamos para cima sem entender, ficamos pequeninos embaixo da árvore. A casa do seu Hilário parecia uma caixinha de fósforo e ficamos pequeninos. As pessoas falavam: “Será que o mundo vai acabar”. A menina loirinha que brincava num balanço pendurado na árvore, nem observava que a árvore crescia, crescia, crescia.. Balançava-se nas alturas e seus cabelos voavam.

Da casa azul vinha uma luz que transformava a árvore, ficava oras dourada ou de um verde quase amadurecido. Corri, atravessei a rua e voltei pra minha sacada para ver se a árvore havia mesmo se tornado gigante, e para minha surpresa ela continuava do mesmo tamanho, com seus passarinhos e frutinhas decorando o jardim da casa azul celeste. Fiquei triste, eu queria tanto subir na árvore e conhecer o céu. Sonhei com isto! Voltei para a festa e senti meus sonhos furtados, não havia festa e só o seu Hilário, que olhava sério para mim, tentando entender minha fisionomia que vislumbrava a árvore sem nada falar. 

Disfarçando, olhei para ele e disse: “O pé de jabuticaba tem histórias para contar, é antigo e por aqui passaram várias gerações. Vc cuida dele com carinho”. E olha o que o seu Hilário me disse: “Você adora esta árvore, que não é de jabuticaba, não. Todas as manhãs observo você sentada na sacada e olhando pra árvore” Respondi-lhe: “ Amo esta árvore, já tirei até fotografias, guardo-as num porta-retratos. Seu Hilário continuou varrendo embaixo da árvore, pois havia caído muitas folhas num vento que deu na noite anterior. Despedimo-nos e retornei ao meu lar pensando: “Por que será que há realidades que só existem na minha imaginação, mas mesmo assim nada me impedirá de continuar apaixonada pela árvore da minha rua, e faço de conta que é um pé de jabuticaba”.