terça-feira, 16 abril, 2024
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Dia 8 de janeiro: um ano após o ocorrido que marcou muitas vidas

Por Alexandra Cavaler

 

Um dos presos relata os momentos dramáticos da Praça dos Três Poderes ao Complexo Penitenciário da Papuda

 

Há exatamente um ano, completados nesta segunda-feira, dia 8, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informou que 1.418 pessoas haviam sido presas e encaminhadas ao Complexo Penitenciário da Papuda e à penitenciária feminina da Colmeia, ambos no Distrito Federal. Todos sob a acusação de vandalismo e tentativa de golpe de Estado. Do total de presos, 222 foram detidos na Praça dos Três Poderes e 1.196 no acampamento montado no quartel do Exército. Entre eles um morador do Sul do Estado a quem vamos chamar de Pedro, por questões judiciais.

“Eu nunca, na minha vida, me envolvi em política, mas eu olhei pros meus filhos e pensei que eu deveria estar em Brasília, manifestar pacificamente no gramado como fizemos por meses em frente aos quartéis. Todos pacificamente como se fossemos uma família. O que nós queríamos era chegar lá, sentar no gramado e ficar aguardando por esclarecimentos quanto ao resultado das eleições. Se mostrassem um comprovante de que tudo ocorreu normalmente, ok. Voltaríamos para casa e seguiríamos com as nossas vidas. Essa era a nossa intenção, ao menos da maioria”, relatou Pedro, afirmando que é difícil aceitar tantas injustiças. “Fui para Brasília porque eu não acho justo ouvir tanta mentira entre outras coisas, sem questionar, simplesmente aceitar”.

 

Ainda segundo ele, que está em liberdade há alguns meses, mas segue usando tornozeleira eletrônica, 14 pessoas estavam no mesmo ônibus que saiu de uma das cidades do Sul do Estado. “Alguns desistiram no dia da viagem. Mas, enfim, quando chegamos lá, depois de caminharmos por quilômetros até chegar ao gramado, percebemos que alguns grupos se formaram e pareciam estar em reuniões. Alguns nos diziam para ir, outro que era para a gente esperar. Até que chegamos à Praça dos Três Poderes. Só que não estávamos entendendo direito o que estava acontecendo, o pessoal muito acalorado… Inclusive idosos, deficientes e crianças. Ficamos espantados, mas, ainda assim, passamos pela revista e logo vimos pessoas encapuzadas e poucos policiais, pois a maioria deles estava no Ministério da Justiça, isso nós víamos de longe, e aí ficou ainda mais confuso para nós. Chegamos a comentar uns com outros: isso aqui é uma armadilha, só pode. Porque não estava normal; até porque ficamos meses em frente de quartéis e era diferente”, contou Pedro.

 

Ainda sobre o gramado, Pedro revelou que em certo momento havia helicóptero jogando bombas de gás nas pessoas que estavam na Praça. “Lançavam as bombas, a polícia cercou de um lado, eu acho que teve a parte da Guarda Nacional, que cercou do outro lado, mas a própria polícia falou: fiquem sentados, não vai acontecer nada com vocês, mas o helicóptero seguia lançando as bombas. Vimos e ajudamos senhoras caídas do chão, nós tínhamos levado garrafas de água o que acabou ajudando as pessoas a lavarem o rosto; ainda assim havia pessoas desmaiando. No começo da noite havia gente avisando para não ficarmos ali nas barracas, e só depois que a gente percebeu que não podíamos mais sair dali do quartel, eles estavam cercando a gente, ficamos encurralados. Pensamos: vamos ficar aqui, não fizemos nada errado. Deixa eles resolverem. Isso tudo na noite de domingo”, disse, ainda revivendo cada momento que passou.

 

Do quartel ao ginásio

Domingo à noite, enquanto ainda estavam no quartel, segundo Pedro, pessoas tentaram invadir. “Havia um batalhão de polícia do lado de fora, a gente não consegue imaginar a quantidade, tentando invadir o quartel, jogando gás, estourando bomba, mas o exército interviu até com tanque de guerra, mas eu não entendi, pois era uma área militar e eles não poderiam entrar ali. Naquele momento os militares nos ajudaram, e quase aconteceu um confronto entre o exército e a polícia. Então, na segunda-feira, levantamos cedo e já havia ônibus estacionados e o exército, que tinha nos ajudado na madrugada, estava em posição de que não nos defenderia, pois estavam virados de frente para nós e cuidando para que nós não saíssemos. E realmente não dava para sair. Até pedimos, mas não deixaram”, pontuou o nosso personagem.

 

Pedro ainda revelou que as pessoas só tinham uma opção: a de entrar em um ônibus sem saber para onde seriam levados. “Eram, aproximadamente, 80 ônibus. Nem o motorista sabia para onde. Ficamos circulando por horas, pessoas com sede, passando mal, querendo ir ao banheiro, chegamos a improvisar uma cortina na escada do ônibus para senhoras fazerem as necessidades. Então paramos na Polícia Militar, depois na academia da Polícia Federal, à tarde já, onde passamos por mais uma revista. E ainda antes do depoimento ocorreu outra revista, essa, mais pente-fino. E então nos levaram para um ginásio, nos deram comida somente no final do dia e à noite trouxeram colchões. E aí, começou a tortura: pessoas angustiadas, chorando, gritando, noite fria, chão gelado, pessoas passando mal; trouxeram equipes de saúde para os atendimentos, não deram conta. Alguns foram levados ao hospital”, detalhou, emocionado.

 

Ele contou que, desesperados, largados à própria sorte, pegaram rolos de papel higiênico e desenharam um pedido de socorro (SOS) no lado de fora do ginásio. “Todo mundo cantando o Hino Nacional, pedindo socorro, porque ali a gente não tinha ajuda de ninguém, mas era um helicóptero de uma emissora de TV. Isso ninguém falou até hoje”, declarou, acrescentando: “Fizeram a gente formar uma fila para os depoimentos e depois para a prisão. Antes disso, na madrugada, acho que trocou a equipe e passaram a liberar alguns com comodidades. Nesta etapa do depoimento foram muito pesados comigo, foi bem difícil. Sem contar que eu já estava, assim como outros, sem comer. E para ajudar, os primeiros advogados que chegaram, pediram até R$ 100 mil sem nos dar certeza de liberação. Falavam que ficaríamos presos por 30 anos; que iam nos colocar junto dos outros detentos e que por sermos patriotas iriam nos matar. Muita gente passou mal por causa disso, sabe? Eu vi gente cortando o pulso, vi um rapaz tentando se enforcar com a corda da barraca, mas graças a Deus ela arrebentou. Na hora eu pensei que ele estava desmontando a barraca para guardá-la. Presenciar tudo isso foi triste demais. E tudo porque nós buscávamos por esclarecimento, não cometemos crime. Mas seguindo, meu depoimento, então foi na madrugada de terça para quarta, e fui levado direto para a Papuda. Sem voz de prisão, sem direita a dar um telefonema. Para o presídio fomos num ônibus com grades, divisórias, daqueles de segurança máxima que vimos em filme; e passamos pelo exame de corpo delito”.

 

Chegada ao Complexo Penitenciário da Papuda

 

“Aí quando a gente chegou ao presídio, foi tenso, pegaram pesado. Sei que eles têm os procedimentos, tem que seguir as regras, mas a gente não sabia de procedimento. Tínhamos que olhar para baixo, eles berravam, nos ameaçavam, todos nós em fila e algemados, as algemas apertadas que deixavam nossas mãos roxas. No levaram para o pátio, havia chovido, sentamos no molhado, já semi nus, descalço… Então veio mais uma humilhação, disseram para tirarmos a roupa toda e ficarmos ‘de quatro’”, relembrou Pedro como se estivesse passando pela mesma situação enquanto falava.

 

“Fomos distribuídos em dois blocos de 13 celas cada um. E em cada cela 18 pessoas. Não sei explicar o motivo, mas nas celas de número 13 foram colocados 22 manifestantes. Nos proibiram de ler a bíblia e de rezar, isso por alguns dias, depois fomos liberados. Em quase 70 dias, 28 pessoas passaram pela cela de Pedro. Ele disse que sempre pediu para ser o último a sair porque não queria deixar nenhum colega sozinho, e assim aconteceu. Dois dias antes de ser liberado, os três que ainda estavam com ele foram colocados em liberdade.

 

O sentimento da liberdade e a família

“Alívio grande”, assim Pedro definiu seu sentimento ao ser libertado. “Um alívio por estar em casa, com a família. Só que muita gente ficou. Não foi um sentimento completo, ainda não consigo festejar”, afirmou, detalhando algumas curiosidades e falando da comida. “Depois de um bom tempo conseguimos o direito a ter uma caneta e começamos a escrever no papel das caixas de suco que recebíamos, mas o pior de tudo era a comida. Tinha um cheiro de coisa química, forte, encontramos vidro, parafuso, corós, legumes com terra. Eu fiquei dias sem comer. Sem contar que não havia talher, então, passados uns 30 alguns dias, como a marmita era de alumínio, moldei umas colheres e entreguei para o pessoal”.

 

Rita (nome fictício) também contou a angústia da espera e da falta de notícias. E falou do seu sentimento quando soube que o marido estava no presídio. “Foi um sentimento de morte. A sensação de não voltar mais pra casa foi como se ele tivesse morrido, e que eu não mais o veria. Os filhos pedindo pelo pai, eu dizia que ele estava trabalhando e que onde ele estava não tinha energia nem para carregar o celular. Um deles chegou a me dizer que não entendia porque o pai tinha escolhido o dinheiro e não a família. Depois de um tempo tive que contar, mas fui leve, disse que ele estava numa casa. Só posso dizer foi uma falta inexplicável, pois nunca ficamos longe”, disse, contando que não reconheceu Pedro quando o reencontrou. “Nem o reconheci; estava tão diferente, muito magro (menos 14 kg), abatido, meio perdido, sabe? E ainda não acabou, mas graças a Deus está em casa e está bem”, comemorou Rita.

 

Aprendizado ou arrependimentos

Questionado sobre o que sente quando relembra toda essa trajetória, Pedro revela que não há arrependimentos, pois não fez algo errado, mas que aprendeu a valorizar ainda mais sua família.  “Arrependimento? Não! Eu não fiz nada de errado. Não fui lá para fazer confusão, muito menos, a gente estava lá por um propósito de mudança ou esclarecimento buscando o melhor para o país, estávamos querendo respostas, que é algo livre, e que está dentro da nossa constituição. Quanto ao aprendizado, posso dizer que dependendo da situação que tu passa na tua vida, em nenhum momento tu pode perder a tua esperança e fé. Vimos muitas casais que estavam quase se separando voltando ao casamento. Eu comecei a valorizar mais a minha esposa, os meus filhos. A nossa família é a base de tudo. E quando a gente fica longe deles, a gente percebe isso ainda mais. Então, estar mais perto da família eu acho que é a maior riqueza que a gente tem nesse mundo”, concluiu Pedro.

 

 

Advogada criciumense representa 46 clientes, todos já liberados da Papuda

 

A advogada Morgana Kjelin, inicia seu relato contanto que a maioria das pessoas que foram presas dentro dos prédios não quebrou e não participou de nenhuma depredação. Apenas, diante das bombas de gás lacrimogêneo e balas de borrachas que foram lançadas, buscaram abrigo nas edificações mais perto deles. A profissional também conta que todos os 46 clientes aos quais ela representa estão em liberdade, mas fazendo uso de tornozeleiras eletrônicas.

 

Ainda segundo Morgana há quase 70 pessoas presas e vários inquéritos em tramites. “São inquéritos diferenciados. Dos que foram presos no quartel general (QG), dentro dos prédios, supostos financiadores, dos que fizeram o convite para a manifestação. E não houve individualização das penas, muitos ficaram meses presos sem qualquer comprovação do suposto crime cometido”, explica a jurista, destacando que as pessoas que saíram do QG foram manifestar-se de forma pacífica, “tanto que não encontram nenhuma arma com eles. Todos os assistidos falam que havia infiltrados, inclusive muitos tentaram impedir a quebradeira, mas a voz dessas pessoas foram ignoradas e as câmeras com suas filmagens desapareceram. Aliás, essas pessoas estão sendo julgadas por uma pessoa que foi vítima dos atos, pois teve seu gabinete invadido. E, somados a isso, são pessoas comuns que deveriam ser julgadas por um juiz de primeiro grau e não pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pois eles não tem foro privilegiado para o processo ser julgado no Supremo”.

 

Outro ponto destacado pela advogada é que essas pessoas que estão presas de forma domiciliar vem sofrendo sérias consequências. “Muitos não conseguem trabalhar devido ao horário imposto pela justiça e todos os pedidos feitos elas defesas dos mesmos são ignorados. Eles ainda se apresentam semanalmente ao fórum, onde o juiz da vara da execução não tem autonomia para deliberar nada, apenas fiscalizar o cumprimento das medidas. Sem contar que essas prisões foram totalmente ilegais, não seguiram o devido processo legal e tiveram como único intuito o de colocar medo na população e eles conseguiram. Basta perceber que agora, e aos poucos, a população está voltando a se manifestar, mas os que foram presos estão com medidas cautelares bem rígidas, ou seja, a mínima coisa pode levá-los de volta à prisão”, ressaltou Morgana.

 

O tratamento destas pessoas nos presídios, Papuda e Colmeia, também pautaram nossa conversa com a advogada. “A comida desses presos era diferente dos presos comuns, ou seja, foram achados pedaços de telha, cabelos, e até rato. Os homens, por exemplo, ficaram em um bloco desocupado e não tinham sequer água para tomar, haja vista que a única água era da pia de dentro da cela e essa descia verde, devido ao tempo parada na caixa. Quanto as mulheres, faltou absorvente, e elas estavam usando sacola plástica. Enfim…”, concluiu Morgana.

 

Relembre o caso

Os ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, também referidos como atos golpistas de 8 de janeiro, foram uma série de vandalismo, invasões e depredações do patrimônio público. Foi uma ação, considerada pelo Supremo Tribunal Federal como atos de terrorismo, apesar de até o momento não existirem punições específicas para tais atos no Código Penal Brasileiro. Foram vandalizados na ocasião o Congresso, o Palácio do Planalto, o Palácio do Supremo Tribunal Federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro não estavam em Brasília no momento das invasões. (Fonte: Wikipédia).

 

CPMI

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou os ataques antidemocráticos de 8 de janeiro aprovou o relatório final da senadora Eliziane Gama (PSD-MA) por 20 votos favoráveis, 11 contrários e uma abstenção. O relatório pede o indiciamento de 61 pessoas por crimes como associação criminosa, violência política, abolição do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Entre elas, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Também constam da lista de pedidos de indiciamento integrantes do GSI e da Polícia Militar do Distrito Federal e empresários acusados de financiar manifestantes contrários ao resultado das eleições de 2022. (Fonte: Agência Câmara de Notícias).

 

 

Fonte: jornal Tribuna de Notícias 

Foto: Nilton Alves 

 

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