Basta uma criança começar a fazer birra em um lugar público para que alguns adultos apelem para uma ameaça conhecida. Ao ver uma viatura policial, apontam para ela e avisam: “Se não se comportar, a polícia vai te pegar!”. A estratégia pode até funcionar naquele momento. A criança se cala, o adulto respira aliviado e o problema parece resolvido.
Mas o que essa criança acabou de aprender?
Em vez de compreender a importância dos limites ou as consequências de suas atitudes, ela pode aprender que existe uma figura de autoridade a ser temida, que poderá puni-la caso não se comporte como esperado.
Muitos pais talvez nunca tenham parado para pensar nisso. Ouviram a mesma frase na infância ou a repetem por ser um recurso rápido para conseguir obediência. Não se trata de condenar uma expressão isolada, muito menos de atribuir a ela consequências inevitáveis. O ponto é perceber o que transmitimos às crianças, inclusive quando não temos a intenção de ensinar.
Há, no entanto, um risco que interessa de perto à segurança pública. A criança que aprende a associar a polícia ao medo pode hesitar em procurá-la justamente quando mais precisa: ao se perder em um shopping ou em uma praia cheia, ao se sentir ameaçada ou ao presenciar uma situação de violência. Quem enxerga o policial como alguém que vai “pegar” pode ter mais dificuldade para vê-lo como alguém disposto a ajudar.
A polícia não precisa ser apresentada como ameaça para que uma criança aprenda a respeitar regras. Ela deve ser compreendida pelo papel que exerce em uma sociedade organizada: uma instituição com responsabilidades, que deve agir dentro da lei e está sujeita a limites e controles.
A criança precisa saber que pode procurar um policial quando estiver perdida, assustada ou em perigo. Respeitar a autoridade não significa temê-la cegamente, assim como questioná-la não significa desrespeitá-la.
A questão vai além da imagem que construímos da polícia. As crianças também aprendem observando como os adultos lidam com o mundo. As primeiras referências vêm daqueles com quem convivem, sobretudo das atitudes que presenciam.
Exigimos respeito, mas destratamos alguém quando somos contrariados; falamos em diálogo, mas encerramos uma discussão aos gritos; cobramos que a criança aceite um “não”, enquanto reagimos mal quando a realidade não corresponde às nossas expectativas.
Nada disso significa criar crianças que nunca se frustrem. Frustração, raiva e discordância fazem parte da vida. O importante é ajudá-las a compreender que sentir essas emoções não dá a ninguém o direito de desrespeitar os outros e que as regras não existem apenas para os momentos convenientes.
Neste mês das crianças, talvez a reflexão mais importante não esteja nos presentes que oferecemos, mas nas referências que construímos. Não controlamos todas as influências que farão parte da formação delas. Podemos, porém, prestar mais atenção ao que demonstramos em casa, na rua, no trânsito e nas pequenas situações em que acreditamos que ninguém está aprendendo nada conosco.
A infância passa. As lições aprendidas pelo caminho podem permanecer por muito tempo.
Afinal, o objetivo não deveria ser apenas conseguir que uma criança se comporte quando um adulto está olhando, mas ajudá-la a compreender como agir, inclusive quando ninguém está por perto.

ALÉM DA RONDA | Felipe Trichez
Policial militar por profissão, cidadão por princípio.
















